quinta-feira, agosto 10, 2006

JÁ BASTA!


Ruben de Carvalho, na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, evocando o conflito no Médio Oriente envolvendo, pelo menos, o Hezbolla, Israel, a Síria e Irão (os dois últimos não cita) – , afirma que o crime não está a compensar. E referindo-se a Israel, a certa altura escreve: "Um primeiro [factor] é que, tendo embora habituado o mundo a um recurso insensato à agressão e à violência militar, Israel tem introduzido nessa política uma frieza que quase sempre se traduz numa tão desconcertante quanto inadmissível impunidade a sustentar uma imoral eficácia. Telavive conta em regime de quase permanência com um conjunto de factores que lhe são favoráveis: antes de mais e determinantemente, o incondicional apoio (político, militar, logístico) de Washington; segundo, um constante jogo com as divisões das nações árabes, sempre causador da ausência de reacções concertadas e eficazes; aliando a estes dois factores uma absoluta falta de qualquer princípio ético. Israel já agrediu, já bombardeou, já raptou, já assassinou, já prendeu, já matou ao longo de anos, sempre porém equilibrando esta política condenada pela comunidade internacional com um pragmatismo que conduz a um inquietante exemplo de situações em que o criminoso ganha com o crime." No entanto, e como política e miltarmente, segundo Ruben de Carvalho (atenção ao aristocrático “de Carvalho”) as coisas poderão ficar pior para Israel na sequência da sua intervenção militar no sul do Líbano, o crime (ou os crimes) perpetrado por Israel não compensa ou não estará a compensar.
Eu leio isto e, vindo de quem vem, só me apetece vomitar para cima de tão ilustre autor. Já nem evoco aquilo que Lenine disse e escreveu sobre a natureza da "moral" e da "ética" ou da natureza do crime e da criminalidade. Apenas recordo que Ruben de Carvalho é militante incondicional de um partido que é e foi cúmplice e/ou executante de “delitos” que vão do assassinato moral ou físico de antigos correligionários à cumplicidade com os maiores crimes políticos (?) cometidos no passado século XX, mas que hoje ainda se vão repetindo desde a adorada Cuba até às inestimáveis República Popular da China ou Coreia do Norte.
Visto isto não deixo de pensar que é preciso ter muita lata não só para andar por aí a dizer estes dislates, como permitir que esta gente tenha vida pública – escreva em jornais, vá fazer comentário político à televisão, dê entrevistas... Um homem (e um partido) que nunca condenou e nunca foi moral e politicamente consequente com aquilo que se passou na defunta União Soviética, com a existência do Muro de Berlim, com as ditaduras comunistas da Europa Central e de Leste, com os crimes cometidos por partidos marxistas-leninistas em Angola, Moçambique ou na Etiópia, acha-se em posição de condenar política e moralmente não apenas Israel, mas quem quer que seja.
Um homenzinho que achou legítimas as intervenções da URSS na Hungria em 1956 ou na Checoslováquia em 1968, ou que, sejamos prosaicos, nada fez de politicamente consistente contra os assassinatos políticos e morais de homens e mulheres como Carlos Brito, João Amaral ou Zita Seabra, acusa Israel de actividade criminosa ao mesmo tempo que suspira de alívio por lhe parecer que afinal – e no caso em apreço – o crime não compensará. Um homem que milita num partido onde não há liberdade, e que mesmo assim conta – tal como o “PC” – com a condescendência de todos, permitindo-lhe estes que exerça e reclame direitos que não são nem foram permitidos aos seus camaradas no seu partido nem a qualquer ser humano nas sociedades que conheceram ou conhecem a benção do comunismo, sejamos claros, um homem assim, irrita-me, põe-me os nervos em franja.Porém, e se olhar mais atentamente para tudo isto, até percebo o comentário. Se tentar ser cínico como ele, acho que percebo. Pertencendo Ruben de Carvalho a uma organização comunista e defendendo princípios políticos e ideológicos que em Portugal e por esse mundo foram e são a razão de ser dos crimes mais sinistros praticados em nome da libertação ou da emancipação do homem e da humanidade, é natural que Ruben de Carvalho se encontre numa posição privilegiada para perceber se o crime compensa ou não. No seu caso, no caso do PCP e no caso dos Partidos e Movimentos Comunistas por esse mundo fora, o articulista sabe do que fala. Para ele e para eles o crime, infelizmente, compensou e compensará. Andam por aí ufanos, falando e escrevendo ufanamente sobre tudo e sobre todos. Resta saber durante quanto mais tempo o crime compensará! Por mim, BASTA!

3 Comments:

Blogger Alexandre Monteiro disse...

Caro Fernando Martins
Por mais abjectas que sejam as opiniões de Rubem de Carvalho e seus camaradas, é preciso ter em conta que não se pode aplicar a estes senhores a mesma bitola que se aplica a pessoas normais e sensatas.
Eles vivem num mundo à parte, dominados por um credo de tipo religioso, que os impele a acreditar no futuro radioso que ainda está por vir.
Por isso todos os fins justificam os meios e nada lhes importa os milhões de seres humanos que já foram assassinados em nome dos «amanhãs que cantam»
O artigo de RC apenas demonstra até que ponto o fanatismo ideológico-religioso pode levar.
Nada de novo ou particularmente surpreendente...

1:10 da tarde  
Anonymous De Esquerda, Mas Não Parvo. disse...

Como é possível que os militantes de partidos de esquerda condenem Israel, para apoiarem aqueles que representam o maior perigo para as sociedades democráticas?
Em Israel, estes senhores poderiam viver em paz, mesmo defendendo os seus ideais. Mas como eles gostam tanto de hammas hezbolahs e companhia limitada, sugiro-lhes que vão defender os seus ideais no Irão ou na Arábia Saudita. Já agora avisem antes de abalar, para nós fazer-mos um concurso de apostas sobre o tempo que durariam até serem enforcados ou decapitados.

5:53 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Caro de esquerda, mas não parvo,

A frase «vão defender o seus ideais no Irão ou na Arábia Saudita» é curiosa. O Irão foi colocado no «eixo do mal». A Arábia Saudita é aliada dos Estados Unidos. Entre os dois o diabo que escolha. Se as mulheres pudessem escolher talvez até escolhessem o Irão, que, apesar do regime sinistro, lhes permite conduzir automóveis e tolera a realização de filmes em que a situação infame das mulheres é denunciada.
Há uma esquerda parva, mas a política de Bush no Médio Oriente é uma idiotia completa.

11:24 da manhã  

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