terça-feira, abril 04, 2006

Aos Últimos Pacientes da Descolonização

Devo começar por dizer que temo que esta nossa conversa aqui no Amigo do Povo – envolvendo, sobretudo, o João Miguel Almeida, a tua pessoa e a minha –, esteja sobretudo a contribuir para maçar e afastar os nossos poucos leitores do que para os interessar (mas também não sei se isso é para aqui chamado). Por isso, quero deixar apenas duas ou três notas àquilo que escreveste. Que não acredito, ao contrário do que transparece no teu texto, que a história caminhe para um objectivo e que esse objectivo, depois da independência da América, fosse o da emancipação ou independência de todos os povos e territórios coloniais – menos ainda de territórios e povos coloniais que ainda não existiam. Convém recordar que depois da independência da América, a que se seguiram as independências da quase totalidade, mas não da totalidade, dos territórios coloniais continentais na América Latina, vários Estados europeus, o Japão e os próprios EUA se entretiveram a expandir-se territorialmente construindo impérios em África e na Ásia. Por outro lado, duvido que se possam comparar as independências americanas no século XVIII e XIX, com as asiáticas e as africanas do terceiro quartel do século XIX. Do ponto de vista político-ideológico, de política internacional, cultural e social não são comparáveis, por mais que pudessem ser evocados como exemplos – e nem sempre o foram. Por exemplo, e para Nasser e o seu nacionalismo árabe, o paradigma político externo foi, em grande medida, o dos nacionalismos europeus fascistas ou filo-fascistas. No caso do Vietname – como na Índia –, a sua liderança podia citar exemplos ocidentais, mas não passavam de cortinas de fumo. A essência do nacionalismo Vietnamita era o forte cariz identitário do Vietname escorado numa luta secular contra várias tentativas de domínio chinês e que depois se virou para franceses e norte-americanos. No caso da Índia, tanto se evocava o Ocidente e as suas virtudes como, sobretudo, se recuperavam e se construíram práticas e ideias essencialmente indianas ou orientais.
Um segundo comentário serve para dizer que me parece que dás muita importância à evolução do sistema internacional, acreditando no princípio de que ele não apenas tem um sentido como, sobretudo, é uma espécie de motor da história. No fundo tudo aquilo que os dirigentes políticos – já para não falar nas “massas” – fazem ou deixam de fazer, desde o Papa a Salazar, ou bem que acompanha o sentido da história ou se não acompanha está condenado ao fracasso. Se é assim talvez nos possas dizer para onde vai o mundo. Por exemplo, talvez me possas dizer em que sentido hoje em dia a política do Vaticano acompanha, ou, pelo contrário, desafia o sentido da história à luz daquilo que são as regras implacáveis ditadas pelo sistema internacional. Por outro lado, e mesmo sendo verdade que Salazar levou a cabo uma política colonial e externa contra os ventos da história e um sistema internacional indomável, porque razão o império colonial português em África sobreviveu trinta anos à Segunda Guerra Mundial e o fascismo português os mesmos quase trinta anos à democratização inevitável segundo as regras do sistema internacional tal como saído daquele mesmo conflito mundial. Mais ainda, porque motivo ninguém foi capaz de dizer quando, como e porquê cairia o império colonial português em África.
O Bruno parece acreditar que há fenómenos poderosos e incontroláveis pela vontade dos homens. Fenómenos que lhes ditam aquilo que hão-de fazer mesmo quando tal lhes parece estar profundamente errado. Convém talvez que sejamos capazes de explicar isso a muito gente para quem o sistema internacional aparentemente não pára de ser padastro.
Por último, e mesmo que o sistema internacional seja o motor da história, talvez valha a pena reflectir sobre se ele é sempre ou preto ou branco, ou pelo contrário, assume várias tonalidades ou cores possíveis entre um extremo e outro. Parece-me, mesmo descontando o facto de que estás a produzir um texto onde não se pode ir muito fundo nas explicações ou fundamentações, que o sistema internacional – a existir – e os seus actores são tudo menos coerentes e racionais. O presente, como esse passado já longínquo que poderíamos caracterizar como sendo o da era das descolonizações, reflecte, também quando falamos de sistema internacional, uma enorme incoerência.
E pronto, escrevi muito mais do que desejava. Mil perdões aos meus, nossos, leitores e ao Bruno.

6 Comments:

Blogger Carlos Galveias disse...

Blog muito interessante... vale a pena voltar, com toda a certeza. Espreita o Orgia Política e dá-nos a tua opinião.

Carlos

1:24 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Fernando

Prometo aos nossos leitores muitos postes curtos a seguir.

Eu não acredito em teleologias. No que acredito é na importância das escolhas. Mas por isso mesmo também acredito que as escolhas têm consequências. O facto de a elite e uma parte importante da população do que vieram a ser os EUA terem optado pela ideia quase inconcebível, em 1776, da independência total teve grandes consequências, no curto e no longo prazo. No curto prazo porque estabeleceu o precedente que levou à independência da América Latina. No longo prazo porque os EUA se tornaram uma grande potência anti-colonial e um exemplo de uma colónia de sucesso.

Os EUA tinham um peso internacional diminuto até ao final do século XIX. Os impérios europeus na África e na Ásia nessa altura foram construídos usando razões humanitárias, (civilizacionais, anti-escravatura) ou de necessidade estratégica, e nada ou quase nada o velho direito de conquista. Sobretudo no caso inglês - de longe o império mais importante - o objectivo expresso, mesmo que nem sempre cumprido, de se avançar no sentido do self-government (e o peso desde o início da indirect rule) são o sinal de que a lição americana tinha sido aprendida.

É claro que não acho irrelevante que a partir de 1945 o sistema internacional seja dominado por duas potências anti-coloniais: os EUA e a URSS. Mas é claro que Londres, Paris, ou Lisboa continuavam a ter escolhas depois disso quanto à gestão do seu império. Eram no entanto, escolhas muito mais complicadas do que antes disso.

No fundo, Fernando, o que me parece é que tu defendes que o poder é irrelevante na política internacional (e interna). Todos somos absolutamente livres a qualquer momento. E que as decisões são inconsequentes: não criam precedentes importantes, não alteram o contexto em que são tomadas as decisões seguintes.

Achas realmente que era a mesma coisa Portugal ter um império a par de outros, e estar isolado internacionalmente na sua determinação de manter o ultramar? Não era mais complicado manter territórios rodeados de países independentes hostis que viam no colonialismo um insulto?

Achas realmente que Churchill ou De Gaulle abdicaram do império porque lhes apeteceu? Livremente? As mudanças na política internacional - no sistema de poder, mas também no sistema de ideias e de legitimação dos estados - não pesaram nada nisso?

No fundo, Fernando, o que eu não percebo é que como é que explicas estas vagas de independências a partir de 1947 na Ásia, e a partir de 1957 na África. Foram todas fruto de decisões individuais e ad hoc?

12:28 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

É claro que não! Mas estás, não sei se notaste, a entrar em contradição em vários argumentos e na utilização de alguns factos. Por um lado, ignoras as variáveis de política interna - nos países colonizadores e nos territórios colonizados. As circunstâncias internas em que Salazar, Franco, De Gaulle, Attlee, Churchill laboravam eram diferentes. Por outro lado, e por exemplo, só por ingenuidade útil é que se pode dizer que o objectivo da expansão imperial britânica depois do século XVIII foi humanitária e buscava o self-government. Depois, foi justamente por razões de poder que houve quem considerasse que o colonialismo era a melhor forma de se manter e acrescentar autoridade à Europa. Aliás, hoje em dia, o que é que os norte-americanos defendem em relação à gestão da política mundial? Entre outras coisas uma divisão de tarefas que entregue a gestão da política africana à Europa! Convém igualmente recordar que apesar do sistema internacional ser, como tu dizes, hostil ao colonialismo depois da década de 1940, não o foi sempre de forma coerente. Não apenas naquilo que respeita à história do colonialismo português, mas à história de outros impérios ou colónias, formais ou informais. Por último, e vistas as disposições impositivas do sistema internacional e da ordem natural das coisas, ainda contínuo à espera que nos digas em que direcção vai no mundo – nos próximos dias, semanas, meses, anos, décadas e séculos.
Será que ainda vale a pena continuar o ping-pong? Parece que ninguém vai abdicar das suas posições que, aliás, estão bastante claras. Por mim podes ficar com a última palavra. Estou, cheio de curiosidade, a aguardar o post sobre os nossos colonos e o inefável pai da pátria.

12:59 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Fernando

Estou longe de considerar a política interna irrelevante. Mas ela é certamente bem mais relevante para explicar a política externa de um Estado poderoso do que de um Estado fraco. A política interna influenciou muito o anti-colonialismo dos EUA. Mas à partida ela teria levado, talvez o RU, e certamente a França ou Portugal a manterem os seus impérios (se o sistema internacional não tivesse tornado os custos disso tão elevados).

A distribuição de poder no sistema internacional cria constrangimentos, mas também o fazem normas e princípios. Para te dar dois exemplo. Duvido muito que os britânicos tivessem ocupado todos os territórios que ocuparam por razões estratégicas ou de cálculo de poder. Se a noção de uma missão civilizadora não tivesse importância nenhuma, não impusesse limites, os britânicos podiam muito simplesmente ter massacrado Gandhi e os seus seguidores não-violentos e mantido o poder na Índia com uma mão-de-ferro.

2:12 da tarde  
Blogger Jota disse...

Caros,

Não querendo menosprezar o poder dos EUA, acho que estão a esquecer um dos pontos mais importantes para os processos de descolonização do Reino Unido e da França. Depois da II Guerra Mundial, os dois estados colonizadores estão completamente falidos e com a necessidade de se reconstruirem internamente, nunca teriam poder para manter um império colonial.

Os EUA e a URSS surgem como super-potencias e nunca faria sentido na nova ordem Internacional a continuação desses poderes.

Portugal tinha capacidade para se manter como potencia colonial, apenas e somente porque no fim da II Guerra Mundial, tinha capacidade, tanto financeira, como politica.

A descolonização Africana Portuguesa é essencialmente um erro na questão básica de que não houve por parte do MFA, uma preocupação minima pelas comunidades africanas. Não era preciso ser um mago para identificar os pontos básicos para uma descolonização tranquila e evitar o processo precipitado decorrente.

Este tema ainda é tabu na nossa sociedade. Mas espero que consigamos nos próximos anos efectuar esta discussão. A descolonização africana não deveria ter sido feita naquela altura, e quiçá ainda não seria possivel fazê-la agora(Nunca Saberemos!!)

9:38 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Joao Pereira

Claro que concordo consigo quanto ao diagnóstico do estado da França ou da Inglaterra depois da guerra (aliás aludo a isso no poste anterior quando falo da saúde financeira britânica). Essas são duas faces da mesma moeda: ascensão dos EUA e da URSS e queda dos poderes europeus.

Claro que se podia argumentar - e houve muito quem o fizesse - que a melhor maneira de recuperar era manter o império. Mas as crescentes despesas militares e a crescente pressão dos EUA (inclusive financeira, veja-se a quebra da libra quando do Suez em 1956) tornavam isso cada vez mais uma miragem.

Quanto a Portugal é que não estou de acordo. Mas esta é realmente uma discussão muito complicada, e que deve ser para continuar: sem tabus, e sem aproveitamentos políticos.

2:57 da tarde  

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