quinta-feira, março 16, 2006

Irão, França, EUA e o Nuclear


Prometi voltar à questão do nuclear e do Irão. Cumpro. Parece que o tema vai começar agora a ser discutido na ONU. E quer os comentadores aos meus postes, quer um mail do Jorge Fernandes, quer o Paulo Gorjão, quer o Henrique Raposo, ou Vasco Pulido Valente, teceram vários considerandos interessantes sobre a questão.
Começemos pelo essencial: o Irão não é uma potência nuclear. Esta não é uma crise nuclear, no sentido da crise dos mísseis de Cuba de 1962. Não há bombas a ameaçar ninguém. É uma crise do regime legal internacional de não-proliferação nuclear. Mesmo que tudo lhe corra bem, o Irão não terá uma primeira bomba funcional senão daqui a três a cinco anos no mínimo, segundo os entendidos. Antes de ter um arsenal nuclear sequer parecido ao da Índia e do Paquistão, dois importantes aliados dos EUA com cerca de 40 bombas, para não falar de Israel, estimado entre 200 e 300 bombas, serão precisos muitos e bons anos. Até lá muita coisa pode acontecer.
O sistema internacional não é caótico, mas é anárquico (no sentido de não ter uma autoridade central). Ou seja, é parte do seu normal funcionamento haver tensão e equilíbrio de ameaças. Há muito que a ordem internacional se vem construindo com base na cooperação mas também na coação.
Interessante é que, quer o VPV, quer o Henrique Raposo, viram o Irão nuclear como uma coisa terrível, mas a França nuclear como uma coisa ridícula. É verdade que uma nova potência nuclear numa região como o Médio Oriente não é fonte de grande consolação. Mas a França irrelevante? A França é a terceira potência nuclear mundial, ao mesmo nível da China. E desde 1995 modernizou o seu arsenal e a sua doutrina nuclear. (O equilibrado discurso nuclear de Chirac - ou apenas “desequilibrado” onde a boa estratégia de dissuasão manda que o seja - veio apneas anunciar a conclusão dessa adaptações iniciadas por Jospin). A França é um dos países mais ricos do mundo, e tem uma reserva de valor no seu chic, que faz com que aquilo porque temos de nos esforçar: captar turistas ou conquistar mercados pelo design, lhe venha naturalmente. Culturalmente perde terreno, mas apenas por ter sido tão dominante anteriormente. E ainda não tem competição o prestígio intelectual de que goza, por exemplo, nos EUA. Dizer que a França não conta internacionalmente não faz sentido. Aliás, viu-se na votação na ONU a respeita da guerra do Iraque. Está em crise, sem dúvida. Mas sobreviveu a outras. Fazer o seu obituário parece-me algo precoce. Diria que VPV e o Henrique Raposo caem na armadilha de tomar as desmedidas ambições francesas – de estar a par dos EUA ou da China – como bitola objectiva da relevância internacional de Paris.

O nuclear e o sistema internacional: sou contra a proliferação de Estados nucleares; sou a favor do reforço da lei e da ordem internacional, neste caso do Tratado de Não Proliferação de 1968. Parecem-me portanto válidas as razões prudenciais que foram apontadas por vários comentadores: quanto mais armas nucleares mais possibilidades de erros catrastóficos. Este regime de controlo da tecnologia militar nuclear tem problemas e está em crise, é verdade. Mas não por culpa da ONU, que tinha um bom projecto de reforma. Mas sim, por culpa dos Estados que não se entendem. A lei internacional (aliás, tal como a interna) pode não evitar o “crime”, mas serve pelo menos para tentar garantir que ele compensa o menos possivel. Serve para dificultar, retardar, deslegitimar a posse de bombas atómicas. (E as reformas legislativas também não são fáceis internamente.)

Mas ao mesmo tempo, sou forçar a reconhecer, analisando friamente os factos, que o nuclear não levou à guerra. Mais, não há qualquer indício que aponte para o reforço da agressividade dos Estados que possuem a bomba. Toda a gente fala de um louco em Teerão. Mas e o "louco" Mao Zedong, que em pleno apogeu da Revolução Cultural, não deixou de manter as bombas sob controlo? Estes "loucos" geralmente mostram-se muito ajuizados quando se tratar de se manterem no poder.

Qual é a melhor forma de lidar com esta crise? Se Bush não conseguir fazer com Teerão o que Nixon fez com Pequim, então o melhor é restringir as sanções à elite política em tudo que tem a ver com as suas finanças e viagens. Tudo o que seja apostar na mudança do regime, mesmo que pacífica, no Irão, só poderá aumentar os incentivos dos homens do regime para avançarem para o nuclear como garantia absoluta da sua segurança. Os EUA e a UE deviam antes procurar dividir Khamenei e Ahmadi-Nejad, e moderados de radicais nacionalistas. Devem procurar obter o acordo de todos os grandes consumidores de petróleo para que recusem fazer novos investimentos na indústria do petróleo no Irão, que precisa de se modernizar, e que seriam (idealmente) canalizados para o aumento da capacidade de produção da concorrência. Quanto ao fornecimentos de armas e outro material (nomeadamente peças sobressalentes) ao exército iraniano: um corte total. Por outras palavras é essencial que os EUA e a UE convençam a Índia, a China, a Rússia, a jogarem o jogo de conter o nuclear a sério.
Tudo isto será muito difícil. Mas menos difícil do que mudar o regime iraniano. O Irão vive ainda obcecado, convém lembrar, pelo golpe americano contra Mossadeg em 1953. Um qualquer ataque militar unilateral americano, felizmente aparentemente mais afastado na doutrina Bush agora revista e emendada, irá resultar: em retaliações sérias contra os norte-americanos no Iraque e no Afeganistão, onde o peso de Teerão não tem parado de crescer; e no reforço dos radiciais do regime iraniano. Em suma, não há boas soluções neste caso, só menos más, pretender o contrário é alimentar ilusões.
PS - Tenho tido pouco ou nenhum tempo para os blogues, o que aliás vai continuar pelos próximos tempos. Só agora dei pelo fim do Espectro. É pena. Estava a afirmar-se, ao contrário das minhas expectativas iniciais, como um participante activo em vários debate blogosféricos.

1 Comments:

Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Post muito bom e esclarecedor, típico de quem está informado do que fala. Aprecio o realismo e o equilíbrio dos teus comentários.

11:16 da manhã  

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