quinta-feira, março 16, 2006

Visão com moscas


Uma frase é como um poliedro reflectindo as luzes que recebe. Se mudar o contexto, o lugar donde é dita, dá-nos a ver outros ângulos e texturas do mundo. Sempre pensei que a frase «as moscas mudam mas a merda é a mesma» era uma sentença passada de boca em boca pelo povo anónimo e alheio à política. Estava enganado. A frase foi dita por Brito Camacho (1868-1934), médico e eminente político da I República. Fundou o Partido Unionista, foi ministro do Fomento e Alto Comissário da República em Moçambique. O contexto é esclarecido por Ferreira Fernandes e João Ferreria no recém-editado, pela Esfera dos Livros, Frases que Fizeram a História de Portugal. É possível que durante a ditadura militar e o advento do Estado Novo, Brito Camacho tenha ouvido com horror a frase proferida com desprezo durante a I República (1910-1926). Lampedusa, em O Leopardo, exprimiu o mesmo ponto de vista com mais elegância: «É preciso que algo mude para que tudo continue na mesma». Há derrotas com sentido muito diferente.

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