segunda-feira, março 13, 2006

PT - o argumento patriótico

O Público de hoje trazia como manchete: «Sul-africanos da Telekom envolvidos/no contra-ataque à OPA sobre a PT». No sóbrio artigo da página 34 fiquei a saber que o objectivo dos sul-africanos da TSA era obter uma posição relevante mas não dominante na empresa. Tanto o jornal como os telejornais que vi acentuavam, no entanto, a componente estrangeira de uma eventual manobra de contra-ataque à OPA da Sonae.
Há uma certa ambiguidade no título: insinua-se ou não o carácter estrangeiro da possível OPA incluindo a TSA por contraponto à natureza «nacional» da OPA proveniente do grupo de Belmiro de Azevedo? Suspeito que o problema não será claramente debatido mas espreitará nas entrelinhas de muitas notícias e artigos de opinião.
Do meu ponto de vista, a questão relevante é saber se a PT possui ou não um interesse económico estratégico que justifica as «acções Golden Share» do Estado. Se tiver, o Estado deve manter alguma forma de controlo, se não tiver, a atitude patriótica do Governo será vender aos compradores que sejam capazes de pagar melhor salários aos trabalhadores portugueses e de oferecer uma melhor relação qualidade do serviço/custo aos consumidores portugueses.
Há um certo nacionalismo de negócios que me irrita. Não passa pela cabeça dos empresários pagar a um português mais do que a um francês ou vender um produto mais barato a uma portuguesa do que a uma italiana, mas alguns consideram-se no direito de serem preferidos pelo Estado como compradores.
O capital não tem pátria, mas a cultura empresarial tem. E a cultura empresarial portuguesa, salvo honrosas excepções, tem pouco para oferecer e a sua quota de responsabilidade na actual situação de desemprego de jovens licenciados. Nos Estados Unidos ou no Reino Unido é normal um licenciado em Filosofia enveredar pela gestão. Sócrates pretende investir na educação e reduzir a administração pública. Mas se a população educada aumentar, as ofertas de emprego na administração pública diminuírem, as barreiras entre os jovens formados em humanidades e o sector privado se mantiverem, o resultado do «choque tecnológico» será, para muitas pessoas, o desemprego ou a emigração. A menos que o investimento estrangeiro aumente e a cultura empresarial mude.

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