domingo, fevereiro 12, 2006

Manifestamente

[fonte Ed Stein via Micas]

O manifesto por Uma Liberdade, está aqui para quem quiser assinar. Eu assinei. Simpatizo alguma coisa com as dificuldades do Rui Tavares quanto a estas acções colectivas. Também tive diferentes dúvidas académicas e práticas. Mas que pesaram bem pouco no final.

Dúvida práticas. Profissão (qual e para quê)? Doutorando? É um estado que se espera passageiro de quem já teve outra ocupação remunerada. Historiador? A história é para mim cada vez mais meio e não fim, e não me parece credível como profissão, infelizmente (e com desculpas aos colegas). Investigador, foi isso que me apeteceu professar, mas in pectore no sentido brasileiro do termo, de detetivar. Sobretudo, hesito sempre em manifestações colectivas, que têm necessariamente um lado de espectáculo. Também me parece que se trafica muito em indignações e eu prefiro análises. Há ainda uma dificuldade de comunhão (começa logo com a minha Igreja). Mas tenho poucas ilusões nestas coisas de acção colectiva (para não me desiludir). Portanto, se concordo com o essencial e se o essencial é realmente importante: manifestemos. Afinal um abaixo-assinado de um só seria uma certa contradição.

Dúvidas eruditas. O recurso ao conceito de tolerância (escrevi um artigo sobre o assunto, o que nos deixa sempre um pouco dogmáticos). Na lógica da tolerância existe uma assimetria intrínseca: há sujeito e objecto, há quem tolera e quem seja tolerado (ou não). Em Locke havia quem estivesse excluído da tolerância que ele advogava (os católicos e os ateus). A tolerância é um primeiro passo para a plena liberdade de expressão e consciência, mas não é um seu sinónimo. No entanto, é precisamente, e bem, por causa dessa filiação histórica que a tolerância aparece no manifesto; e também no sentido comum de tolerância mútua, de convívio de ideias diferentes.

Estas dúvidas pouco importaram porque estava de acordo no essencial e havia um esforço para não se cair em maniqueísmos. Civilização ou Ocidente não me causam incómodos nem devoções. São conceitos que vão servindo. Ou seja para descrever um certo aspecto da realidade. Ou seja para carregar uma (legítima, mas sempre questionável) tralha ideológica em cima. (Como sucede com muitos outros: desde a nação até aos trabalhadores). Eu, ao contrário da baronesa Thatcher, acredito que existem sociedades que, não sendo evidentemente homogéneas, têm normas e preferências que as definem e aproximam ou diferenciam de outras. Como sou de esquerda e liberal não acredito que essas diferenças sejam indiferentes. Há que respeitar os outros (por exemplo: o gosto europeu pela caricatura). Mas relativista é coisa que nunca fui: liberalismo para os liberais e canibalismo para os canibais nunca me pareceu um grande ideia. A dignidade e a liberdade humanas não são relativas. Isto é essencial. Isto está em causa nestes apelos aflitos e aflitivos à auto-censura. Isto estava no título do manifesto por Uma Liberdade. Houve ainda no texto o cuidado fundamental de referir os que corajosamente no seio das sociedades islâmicas combatem o fanatismo. Por isso o manifesto me pareceu um bom manifesto, tanto quanto um manifesto pode ser. E esta era uma ocasião em que ele era manifestamente necessário.

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