sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Diálogo de Civilizações ou Diálogo de Surdos



[de Jeff Stahler via Micas]

Gosto da Ana Sá Lopes. (De vez em quando farei uns elogios destes só para despistar). E nem sequer a conheço. Escreve bem. Pensa independentemente. Mas neste texto, em que ela mostra essas duas qualidades, no entanto, para mim, não percebe o essencial. Bom senso? Bom senso, como regra, numa caricatura? Desde quando é que isso existe?!

Num comunicado do MNE, aí sim, devia haver bom senso. E o bom senso e o bom gosto mandam que os governos da europeus deixem claro que não têm nada que se pronunciar sobre caricaturas nenhumas. Nem do Maomé. Nem da Nossa Senhora. Nem do Afonso Costa. As caricaturas foram publicadas na Europa e se alguma lei foi violada é um problema para os tribunais, que supostamente sabem distinguir entre sátira e injúria. Os governos europeus devem deixar claro que tal como não aceitam a ideia de que todos os muçulmanos são uns fanáticos violentos, também não aceitam que os dinamarqueses todos, ou os europeus todos, sejam ameaçados por caricaturas que só vinculam quem as desenhou e quem as publicou, e que nunca poderiam justificar actos violentos. Dizer isto era essencial. Podia-se juntar alguma coisa mais diplomática, admito que sim, é para isso que serve a diplomacia. Mas isto tinha de estar lá.

E há um dado fundamental a ter em conta se se traz o (complicado) diálogo de civilizações para esta questão. (Desde logo duvido que as caricaturas sejam o melhor meio; e se calhar, para quem ainda não percebeu, havia que explicar o que são). Como se pode ver aqui, o motivo da encomenda da série de caricaturas de Maomé (algumas de gosto duvidoso, mas são caricaturas) foi o facto da autora de uma respeitosa história infantil sobre a vida do profeta do Islão em dinamarquês - um contributo para o diálogo de civilizações - se ter queixado de não ter conseguido encontrar nenhum ilustrador! Estavam todos demasiado assustados com a possibilidade de terem problemas com fanáticos islamistas só por desenharam, por mais inocentemente que fosse, Maomé.
Liberdade é diferente de licenciosidade? É. Mas também é um mito se toda a gente se auto-censurar. Por isso é que a sátira tem uma função tão importante, e anda sempre na corda bamba.

Diálogo? Sim. Dar força aos moderados no Islão? Evidente, se for possível. Não misturar alhos com bugalhos? Claro. Mas para dialogar é preciso ter alguma coisa para dizer. E se estamos tão condicionados pelo bom senso e pelo bom gosto, pelo temor de ofender ou provocar represálias, que não dizemos nada, é capaz de ser um diálogo de surdos.

1 Comments:

Anonymous miguel disse...

Bom post!

8:24 da tarde  

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