quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Sopesar a próstata e passar à clandestinidade


Como se não bastasse o triste espectáculo de oportunismo e de cobardia dado nos últimos dias pelo nosso Governo, visto o conteúdo dos comentários oficiais que produziu como resposta à onda violência que varre alguns países islâmicos desde há uma semana, veio agora o nosso presidente, o doutor Sampaio, dar uma prova de grande coragem e apreço pela democracia – neste caso apenas pela portuguesa. A sua visita ao concelho de Nelas na manhã do dia de hoje – um dos não sei quantos que ainda não tinha inspeccionado ao longo dos dez anos em que pastou tranquilamente em Belém – foi um episódio repugnante.
Há uns anos Sampaio vetou a criação do concelho de Canas de Senhorim, impedindo dessa forma aquilo que o povo pedia e que o Governo e o Parlamento da altura quiseram dar. Não sei se o presidente fez bem ou fez mal. O mesmo se aplica à maioria PSD-CDS de então e ao Governo de “centro-direita” que sustentava. Não me interessa absolutamente nada. Sabe-se, porém, que depois de tal veto o doutor Sampaio tem sido alvo de todo o tipo de protestos – na sua grande maioria legítimos e apenas um ou outro merecedor de uma especial atenção por parte das polícias e dos tribunais. A população de Canas ou, pelo menos, uma comissão muito participada que deseja a restauração do dito concelho tem-se desdobrado em iniciativas de todo o tipo, sendo que em muitas delas revela um ódio especial pelo nosso chefe de Estado.
Este chefe de Estado, garante do regular funcionamento das instituições democráticas, o que é que faz quando decide ir a Nelas? Mantém a agenda secreta, mesmo assim altera-a à última hora, reduzindo a sua passagem pelo Concelho de Nelas, que é também o da freguesia de Canas de Senhorim, a uma visita com a duração de uma ou duas horas a uma empresa que se dedica à exportação de bens. Aliás. e não fosse o diabo tecê-las, a empresa ficava a uma distância segura do centro da vila de Nelas.
Moral da história. Era mais fácil enfrentar a força bruta e ilegítima da polícia de choque salazarista no início da década de 1960, do que os protestos – legais ou ilegais – com que o povo de Canas desejaria naturalmente brindar Jorge Sampaio aquando da sua visita a mais um recanto do Portugal profundo.
A partir daqui ficamos ainda a saber que Jorge Sampaio é um político sem coragem – como quase todos – incapaz de enfrentar aqueles que, bem ou mal, não lhe perdoam uma atitude política que legitimamente tomou mas que não consegue assumir em todas as suas consequências. Para Sampaio a democracia e liberdade só podem ser exercidas nos termos em que lhe convém e nos termos em que o povo a queira legal ou ilegalmente manifestar, assumindo as partes todas as consequências do exercício do jogo democrático. Afinal Jorge Sampaio não andou gratuitamente a sopesar a próstata aos juízes. Fê-lo porque quer que os portugueses sopesem diligentemente a sua. O exercício da democracia e da liberdade não é para todos. Nem para o presidente da República nem para o povo de Canas de Senhorim. Chamar cobarde a Sampaio, enquadrado por pesado e abundante vernáculo, é coisa que não pode nem deve ser feita, especialmente pelo povo. Sobretudo em liberdade. Sobretudo em democracia. Passemos todos à clandestinidade como Sampaio fez no Concelho de Nelas.

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