sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A arca perdida em Munich

A crítica de Nuno Ramos de Almeida à inverosimilhança do enredo de Munique, aqui, é um bom ponto de partida para colocar o filme no devido lugar. Não julgo que faça sentido ver esta película de um modo muito diferente das outras de Spielberg, a partir de uma falsa dicotomia entre obras «realistas» e «de fantasia», «de entretenimento» e «sérias». Para ver Munique, como para ver O Tubarão, ET, Os Salteadores da Arca Perdida, ou a Guerra dos Mundos, o espectador deve «suspender a descrença». Porém, não estamos apenas perante mais um filme de Hollywood. O enredo faz eco de histórias muito mais antigas. Como em as Mil e uma Noites, estamos perante uma narrativa de sobrevivência. Como na Bíblia, as personagens expulsas de um lugar de harmonia mítica – o paraíso – lutam pela Terra Prometida e debatem-se com problemas éticos.
Este é um filme de autor, com vasos comunicantes com outros filmes de Spielberg. O terror e a luta pelo território faz-nos pensar em A Guerra dos Mundos, mas o ambiente psicológico é familiar a O Tubarão, principalmente na espiral fóbica – os caçadores do tubarão viam-se reduzidos a um pequeno barco mantendo-se com dificuldade à tona de um mar donde, a qualquer momento, podia surgir o predador. O duro Avner partilha com o ET a busca de uma casa/«home». A demanda da Arca Perdida era motivada pela posse de uma arma capaz de destruir os inimigos e a história saldava-se pela destruição dos nazis pelos espíritos saídos da Arca.
A «suspensão da descrença» pode ser entendida num duplo sentido, pois do que se trata em Munique é também de reflectir sobre as crenças e o sentido do judaísmo. O conflito israelo-palestino é abordado por um judeu norte-americano que, em filmes anteriores, nomeadamente A Guerra dos Mundos, como já escrevi aqui, tende a identificar o messianismo judaico com a mitologia norte-americana. Ao aproximar-se do desfecho, o narrador insinua um distanciamento em relação ao ponto de vista israelita: a Terra Prometida não seria necessariamente Israel, mas os Estados Unidos. Israel, encarada no século XX como um abrigo de último recurso para judeus de todo o mundo, tornou-se fonte de terror. A personagem busca refúgio em Nova Iorque. Mas o plano das torres do World Trader Center expõe a continuidade entre os conflitos do velho e do novo mundo. O judaísmo teria de ser outra concepção, talvez próxima da de Emmannuel Levinas, que afirma o primado da ética, ao escrever: «Faz obra de justiça – a rectidão do frente a frente – para que se produza a abertura que leva a Deus». Julgo ser esta a perspectiva do narrador. O Luís já sublinhou aqui a importância do episódio em que Avner convida o agente da Mossad para ir a sua casa e partilhar o pão. O outro recusa. Percebe-se: quem é capaz de partilhar o pão com um homem de um país diferente estaria disponível para dividir a terra com estrangeiros.

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