terça-feira, dezembro 09, 2008

Ouvir para crer, com o Major Tomé no Rádio Clube

Ontem à noite o Alexandre Honrado (programa Ao fim do Dia, no RCP, todas as noites, com Sofia Frazôa) desafiou-me para falar da Esquerda não comunista a propósito do último congresso do PCP. O interlocutor, esse velho lobo do mar que dá pelo nome de major Mário Tomé.
Claro que não há muito a dizer sobre o Partido Conservador Português. Hoje em dia, e como o congresso mostrou, é o melhor apoio táctico do Governo, ao dizer de BE, de Alegre e (até) de comunistas de antigamente o que o PS não pode dizer (nem deve, por prezar a liberdade). Além de, ao recusar qualquer aliança, garantir a divisão da extrema-esquerda (realmente, como juntar o negativo ao negativo?).
Quando Jerónimo de Sousa garante que o PCP será governo quando o povo português quiser, isto na quarta década de democracia em que o povo português rejeita isso, diz tudo. De facto, tal como qualquer revisão da Constituição é sempre denunciada pelo PCP como o mais grave atentado ao 25 de Abril e, assim que a revisão é feita, a Constituição passa a ser defendida pelo PCP como conquista de Abril, tal como os «modelos socialistas » caros ao PCP são Cuba e Coreia do Norte, também a política quotidiana é objecto do mais completo conservadorismo por parte do PCP, que denuncia a «política de Direita» seguida pelo PS enquanto vota com a Direita no Parlamento (como na última Sexta, o que parece desinteressante para quem prefere falar de quem não está em vez do que faz quem está). E vota, claro, não para fazer algo, mesmo que de Direita, mas simplesmente para suspender que se faça. A Direita portuguesa propõe a manutenção do statu quo para manter o privilégio da sua posição social relativa; a Esquerda conservadora, alinha por, desde sempre, o seu maior adversário ser a Esquerda democrática, que reforma de facto a pouco e pouco, em vez de protestar enquanto garante que, «um dia», haverá um modelo todo novo e até lá capitalizamos as queixas sem projecto político construtivo...
Aqui, o major Tomé afinou, pois o BE também vota com a Direita e é tão conservador como o PCP. E deixou a ideologia que até aí o interessava («neoliberalismo»e outras cosias que tão bem conhece) e lá veio com a «ética». Felizmente, eu tenho idade para me lembrar do «partido da ética» (feito a partir da presidência da República), que fez o belo serviço à Esquerda conservadora de eleger um governo de Direita com maioria absoluta. Bons velhos tempos... Aí era só queixas, etc., nada para fazer. Felizmente, os portugueses parecem estar bem atentos a esta «ética» e, como Alexandre Honrado notava, desde o início da actual maioria mantêm a intenção de colocar o PS no governo em 2009, com maioria parlamentar absoluta ou perto disso. Como sempre fizeram quando, em liberdade, quiseram reformas de Esquerda, os portugueses votam no PS. O(s) Partido(s) Conservador(es) Portugues(es) que se entretenham a atirar lama (ou ovos), a competir pelo voto protestativo uns com os outros, com as suas purgas internas. Logo no 25 de Abril apelavam ao voto em branco, até nisso conservam a sua «ética» da política - votar neles ou votar em branco é igual, de facto.

PS - Alexandre Honrado a dada altura citou Saramago que terá dito recentemente (cito de memória) que a Esquerda agora já não o é, sendo simplesmente «estúpida». Vindo de alguém com a «ética» política de Saramago, é um elogio, mas o interesse da pérola nem está aí, consiste sim em ser uma boa súmula do pensamento da Esquerda conservadora portuguesa. Levando-os à letra temos: ou a) este é o país mais à Direita do mundo, em que só menos de 10% (eleitorado PCP) vota à Esquerda; ou b), as pessoas querem votar à Esquerda mas não percebem que o PS é de Direita e por isso elegeram nos anos 70 e 80 Soares, nos anos 90 Guterres e, agora, Sócrates. Muitas frases de Saramago, aliás, se fossem ditas por outras pessoas, dariam brado. Assim, é curioso, ninguém se indigna. Estupidez? Não creio, infelizmente.

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