segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pormaiores



A ficção para televisão em contexto de época exige muito de quem a faz. Nenhum décor, traje, interjeição verbal ou enquadramento paisagístico podem ser propriamente naturais, e no entanto têm de parecê-lo. Mesmo sem orçamentos hollywoodescos, está provado que é possível levar a cabo boas produções. Internacionamente, veja-se o que a LWT (e depois a Granada) conseguiu em Poirot. Por cá, achei Bocage, dos mesmos autores de O Dia do Regicídio, produção bastante aceitável. Não tão boa, em termos globais, quanto a metade oitocentista de Nome de Código: Sintra, ou Até Amanhã, Camaradas, ainda assim bastante aceitável. Por isso não percebo como pôde essa mesma equipe fazer agora tão fraca mini-série. Podia referir a falta de economia narrativa, a pobreza dos diálogos, a fixidez (e excessiva duração) de cada plano, mas fico-me pelas barbas do Buíça. Ante um postiço ridículo*, quantos espectadores não mudarão imediatamente de canal? Uma pena, dado o empenho de actores como Pedro Carmo (Aquilino Ribeiro), Virgílio Castelo (Afonso Costa), Afonso Pimentel (Luís Filipe de Bragança) e Diana Costa e Silva (Maria).

* em empate técnico com o capachinho do Dr. Mello Breyner.

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2 Comments:

Blogger João Miguel Almeida disse...

Vi aí uma meia-hora do último episódio da série, mas chega para concordar. Acrescento ainda a história mal enxertada e fundamentada do Aquilino Ribeiro. Enxerta-se uma versão polémica da História - a de que Aquilino foi um dos regicidas, hipótese fundamentada apenas numa personagem de ficção do autor - numa «reconstituição oficial» dos acontecimentos.
É claro que eu acho legítimo haver histórias que contestem as versões oficiais da História, especulando sobre as lacunas do que sabemos do passado. Desde que essas versões alternativas se assumam como especulações. No Reino Unido, por exemplo, há quem defenda que o «Jack Estripador» era um membro da família real. Mas seria esquisito que numa série da BBC que procurasse reconstituir acontecimentos da família real, uma das figuras reais fosse apresentada como «Jack o Estripador».
Aquilino regicida talvez fizesse sentido numa série alternativa da SICradical. Mas numa série da RTP com pretensões didácticas e de rigorosa reconstituição história, é um atentado...à História e ao bom nome do escritor.

5:13 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

João, eu também não vi a série de cabo a rabo, mas do que vi, parece-me que o aviso nos créditos finais onde se refere haver (cito de memória)uma "adaptação livre", não chegam para perceber a preponderância aquilina numa narrativa que se pretende ilustrativa dos eventos conducentes ao regicídio. Só mesmo perguntando aos argumentistas.

10:59 da tarde  

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