sábado, julho 28, 2007

O 'Escutismo' e os 'Escuteiros'


Ai existem, existem, caro João. E se estão nos nossos dicionários, foi porque delas houve necessidade e porque o uso as consagrou. É que a nossa língua exprimiu bem a multiplicidade de fenómenos que em Portugal, entre 1911 e a actualidade, derivaram (mais ou menos ortodoxamente) do boy-scouting concebido por Robert Baden-Powell - pela primeira vez posto em prática numa pequena ilha da Baía de Poole, fará no próximo dia 1 de Agosto cem redondos anos -, mas também forjou palavras para falar da coisa em termos gerais. Ressuscitaste no teu post uma velha polémica nominalista que, em meu entender, não tem qualquer validade. Porquê? Porque em Portugal tivemos (e em alguns casos temos) escoteiros, adueiros, escutas, desbravadores e royal rangers, dos quais derivaram outros tantos "ismos", correspondentes a outras tantas agremiações, mas nenhuma destas serve para descrever os indivíduos e a experiência pedagógica nacionais na sua globalidade. Vejamos: nas primeiras actividades do género, ocorridas em 1911, utilizaram-se as expressões originais (boy scout e scouting); porém, alguns membros da futura Associação de Escoteiros de Portugal, oficializada em 1913, promoveram de Agosto a Outubro de 1912, n'O Século, uma consulta pública para a adaptação da terminologia à nossa língua. Como em português já existia o substantivo/adjectivo escoteiro, que tinha algumas semelhanças fonéticas e de significado, essa foi a palavra escolhida. Situação e processos similares, aliados à necessidade de distinção, levaram à escolha das palavras adueiro (1914), escuta (1934) e desbravador (1975). Ora, apenas no seio de cada "capelinha" uma terminologia restrita fazia e faz sentido. O querer falar genericamente do boy scout português, e em bom português, levou (em meados do séc. XX) ao aparecimento do termo 'escuteiro' (e, por derivação, 'escutismo'), curiosa fusão entre as denominações (escoteiro + escuta) criadas pelas duas associações portuguesas mais duradouras, a Associação de Escoteiros de Portugal, a que tu pertenceste, e pelo Corpo Nacional de Escutas, a que eu pertenci. E assim é, até hoje, muito justificadamente.

Um grande left hand shake para ti.

2 Comments:

Blogger João Villalobos disse...

Pois sim...Argumento muito bem estruturado, mas fico na minha :) E à espera de saber o que é que os «rapazes do castelo» poderão ter em comum.
Boa caça ;)
Assinado: Lobo Astuto

1:41 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Teimoso:) Quanto ao denominador comum, guardarei declarações para alguma ocasião de cavaqueira :)

Boa caça, João.

12:36 da manhã  

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