domingo, abril 15, 2007

Clássicos para o Povo: Uma Questão de Título Profissional

Doutor Flávio: Vá! O que fazem na rua, meu bando de mandriões, hoje é feriado por acaso? Não sabem que em dia de trabalho, meus desqualificados, não podem andar pelas ruas sem trazerem o símbolo da vossa profissão? Fala: qual é a tua profissão?
Carpinteiro: Sou carpinteiro senhor doutor.
Doutor Marulo: Onde está o teu lápis na orelha, a tua régua? Porque vestes roupas domingueiras? E tu, qual é a tua profissão?
Sapateiro: Bem, senhor doutor, e com o devido respeito por quem tem melhores qualificações, não passo de um remendão.
Doutor Marulo: Mas que fazes profissionalmente? Responde-me sem rodeios.
Sapateiro: Uma profissão que espero poder exercer de boa consciência, a de remendão de maus fundos.
Doutor Marulo: Mas que profissão é essa, meu malandro? Que profissão, meu mandrião?
Sapateiro: Senhor doutor não se passe comigo! Mas se passear muito comigo posso remendá-lo.
Doutor Marulo: Remendar-me? Como te atreves meu poltrão?
Sapateiro: Senhor doutor sou sapateiro.
[…]
Doutor Flávio: Mas porque andas com estes homens pelas ruas?
Sapateiro: Sinceramente é para os fazer gastar as solas dos sapatos. Mas o pretexto é a tolerância de ponto que temos para ver César, para assistir ao seu comício triunfal

FONTE: Shakespeare, The Tragedy of Julius Caesar [1599], Act.I Sc.I. [Tradução livre q.b. do subscritor]

Parece-me que a Cornucópia acertou em cheio programando para esta altura a peça Júlio César de Shakespeare. Não assisti (ainda) a esta encenação. Mas deve valer a pena. (Se bem que duvido que a tradução seja tão fiel ao espírito da coisa como a minha.) Evidentemente que a actualidade do texto do bardo inglês não vem de vivermos numa época de assassinatos políticos; mas sim do facto de que a peça abre precisamente com uma discussão sobre títulos profissionais.
Aliás, não seria melhor num país tão preocupado com o rigor a respeito dos ditos, recuperar-se em Portugal os costumes da velha Roma, mãe de todos nós? Não seria mais simples se toda a gente tivesse uma espécie de logotipo, que identificasse a sua profissão e formação?
Não menos pertinente, diga-se, é a preocupação com o excesso de feriados. Quem diz que os clássicos não têm nada para oferecer ao povo, que são irrelevantes para as discussões dos dias de hoje?
ADENDA: Bem a propósito desta questão do rigor no uso dos títulos profissionais vem este poste do Kontratempos a respeito da advocacia de Marques Mendes.

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