terça-feira, março 06, 2007

A derrota póstuma de Salazar

Ao contrário de outros ditadores, Salazar escapou a um julgamento daqueles que governou durante quatro décadas. A catarse da ditadura foi póstuma, por assim escrever, e a votação dos «Grandes Portugueses» tem um estranho sabor a póstuma reavaliação. Daí as paixões que o caso suscita.
Para mim, que não vivi sob o regime de Salazar, o ditador perde de qualquer modo: se perder, perde; se ganhar, fica provada a sua estupidez. Sejamos claros: se a vitória no concurso televisivo vale para provar a tese de que Salazar teve o apoio da população portuguesa, então o seu regime foi um disparate de fio a pavio. É caso para dizer: «It´s the elections, stupid». Bastava-lhe fazer eleições e até lhe convinha alargar o sufrágio. Para quê a censura, a PIDE, a proibição dos partidos políticos e da liberdade de associação?
Se vencer, Salazar também sofre uma clamorosa derrota, numa perspectiva mais subtil: toda a sua política se baseou numa concepção pessimista do povo português. Os portugueses, ao contrário dos britânicos que podiam viver em democracia, possuíam todos os vícios. Daí a necessidade de disciplina, da orientação de um homem superior que só podia governar autoritariamente, sem satisfazer os desejos do povo. Se Salazar ganhar a votação deste povo que «não muda», de duas uma: ou ele estava enganado acerca do povo, ou estava enganado acerca de si mesmo. O patareco.

1 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

Estes excelentes 'argumentos' só fariam sentido se a 'democracia' fosse um valor universal e natural. Não o é, nem o era para Salazar, nem no tempo do dito cujo.

3:26 da tarde  

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