segunda-feira, março 05, 2007

Uma semana fora

A semana passada passei-a na Faculdade de Xeografia e História da Universidade de Santiago de Compostela a falar sobre "Consolidações do Estado Novo: História e Teoria" a alunos de mestrado e doutoramento. Não fosse a chuva e o vento constantes desde 4.ª feira, tudo teria sido perfeito - ou quase! Os alunos mostraram uma enorme disponibilidade para aprender alguma coisa sobre história do século XX português desde o Ultimato até ao 25 de Abril. Ao longo de 4 dias, e num total de 10 horas, a plateia esteve quase sempre atenta e interessada. Fizeram-no não por causa do talento de quem falava e apresentava power points q.b., mas porque há na Galiza, em sectores universitários e jovens, sobretudo de esquerda e nacionalistas (mas não só), uma enorme apetência pelo conhecimento de Portugal, da sua cultura e da sua história.
Visto isto, aquilo que mais impressiona é o elevadíssimo grau de politização e de radicalismo que tem tomado conta da vida política espanhola e ao qual as Universidades não têm ficado imunes, sobretudo em cursos e escolas como as de Direito, Ciência Política, História e Linguística. Em si mesmo o radicalismo e a politização são-me relativamente indiferentes, embora a curto-médio prazo produzam uma descida na qualidade do ensino e da investigação. No entanto, radicalismo e politização preocupam-me quando se transformam em "perseguição" a todos aqueles que apreciam e praticam a moderação e um perfil baixo na crescente politização do sistema de ensino e de investigação científica. É neste ponto que o sistema de ensino superior na Galiza e em grande parte de Espanha se encontram. Ou seja, e em grande medida, no estado em que vegetavam as Universidades portuguesas nas décadas de 1930, 1960 e 1970. A margem de liberdade é escassa, e cada vez mais, sendo claro que quem ilude, por inteligência e bom senso, o padrão político-ideológico dominante numa determinada escola ou departamento se arrisca, na melhor das hipóteses, a desempenhar o papel de refugiado político em Espanha ou no estrangeiro (algo que há uns anos acontecia apenas a docentes de Universidades vascas). Aguardemos desenvolvimentos, mas estejamos atentos e preocupados. Até por que o radicalismo e a intolerância na vida política espanhola, à esquerda e à direita, assumem nesta altura proporções que se arriscam a deixar de poder ser controladas.

5 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

da mesma maneira que o radicalismo e politização poderão vir a tirar qualidade aos estudos efectuados, devem ser considerados como um verdadeiro estímulo à produção intelectual..

9:43 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Não me parece... É verdade que não há produção académica sem ideologia, e que o radicalismo "intelectual" e político também pode ser estimulante e produtivo. Mas apenas em si e por si. As coisas degradam-se irremediavelmente quando a vida universitária, e a carreira de docentes e investigadores, depende não da da qualidade do trabalho em si mas das posições político-ideológicas dos mesmos.

11:38 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Pensei nao escrever qualquer cometário a este post mas nao resisto. Estou completamente de acordo com o que escreveu tanto no post como no comentário ao primeiro anónimo.

"Aguardemos desenvolvimentos, mas estejamos atentos e preocupados. Até por que o radicalismo e a intolerância na vida política espanhola, à esquerda e à direita, assumem nesta altura proporções que se arriscam a deixar de poder ser controladas."

Eu nao sou tao catastrofista mas a verdade é que uma coisa que cada vez se faz menos por estes lados é discutir de política com amigos com ideias opostas. Já nao vale a pena. Por outro lado, penso que em cidades como Madrid a situaçao que se vive é bastante mais "sufocante" que em Barcelona por exemplo.

7:24 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Para esclarecer a minha posição e acrescentar algo mais:

Não deixo de concordar com o que escreveu... é um sinal de alarme quando temos investigadores, professores (e sua produção académica) absortos na sua própria ideologia e pela sua postura política. Ainda assim, considero ser sempre útil a produção científica. A qualidade ou não, a excessiva politização ou não dos estudos, serão posteriormente avaliados pela academia e pela comunidade em geral. O problema será, daqui a uns anos, a possível escassez de académicos e instituições, capazes de destrinçar e avaliar neutralmente a tal produção académica e conceder-lhe ou não o estatuto que ela realmente deve ter.

2:58 da manhã  
Anonymous africamente disse...

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1:06 da manhã  

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