domingo, fevereiro 04, 2007

Os retrovisores

Em todas as manifestações há que ter em conta tanto os que saem à rua como os que ficam em casa, sendo que dificilmente qualquer manifestação, por mais justa ou unitária que seja, consegue pôr na rua a totalidade, ou sequer a maioria, daqueles que nessa manifestação podem participar. Em Madrid saiu ontem à rua uma multidão impressionante, superior em número de marchantes àquela realizada há umas semanas na sequência do atentado de Barajas levado a cabo pela ETA. Na de ontem pediu-se o regresso ao pacto antiterrorista e o fim de negociações com os etarras. Na primeira apoiava-se o governo socialista, choravam-se sinceramente as vítimas, mas era evidente que se continuava a apoiar a solução de diálogo (a qualquer preço) reivindicado há muito por Zapatero.
Voltando à manifestação de ontem, e do ponto de vista do seu significado político, poderá concluir-se que uma parte muito importante da opinião pública espanhola rejeita a política de Zapatero ou, de modo mais prosaico, que aqueles que organizaram a mais recente manifestação têm, ao menos momentaneamente, uma melhor capacidade organizativa e de mobilização. Porém, o seu verdadeiro impacte, se o tiver, ainda tardará em ser medido.
Mas não é sobre isto que eu quero falar. O que a mim me importa é o facto de, olhando para as duas manifestações, para as palavras de ordens gritadas, para a estética de ambas – das bandeiras até ao modelo de organização, passando pela movimentação das massas nelas participantes –, e para os respectivos objectivos, perceber-se que a sociedade espanhola está profunda e, talvez, irremediavelmente dividida. Está-o, por incrível que pareça, numa questão sobre a qual se manteve global e aparentemente unida desde que a transição democrática se consumou já lá vão quase trinta anos. As culpas desta divisão serão de todas as forças políticas e devem-se a múltiplos factores, mas convém recordar que foi Zapatero e o seu governo quem decidiu romper com o “consenso democrático” que na questão terrorista amarrava os dois grandes partidos nacionais espanhóis (PSOE e PP). Zapatero fê-lo, certamente, pelas melhores razões e com a maior das boas vontades (embora eu não acredite). No entanto, convém recordar que a última guerra civil espanhola não foi apenas entre “nacionais” e “vermelhos”. Foi também, e muito, uma guerra sobre a melhor forma de organizar o estado espanhol e sobre visões opostas sobre essa mesma organização política e administrativa. Os “nacionais” eram maioritariamente centralistas, ao passo que os “vermelhos” pareciam ser maioritariamente favoráveis à transformação de Espanha numa realidade política federal ou confederal, hipótese que, por exemplo, assustava tanto ou mais as autoridades portuguesas do que a possibilidade do triunfo da revolução a la bolchevique no nosso único e imprevisível vizinho. Sucede que a guerra de 1936-1939 em Espanha não foi a única em que a questão da estrutura do estado espanhol esteve em jogo. Quem não se lembra da guerra de sucessão espanhola iniciada em 1701, concluída treze anos mais tarde e na qual toda a Europa, e também a monarquia lusa, acabariam por se envolver directamente?Eu sei que a história não se repete. Mas quem olha para o estado da Espanha hoje não pode nem deve deixar de olhar mais para trás. É como ir ao volante. Olhar em frente, mas sempre atento aos retrovisores, não vá alguém surpreender-nos irremediavelmente numa ultrapassagem mal feita. O perigo, a maior parte das vezes, vem atrás, vem de trás.

4 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

"Em Madrid saiu ontem à rua uma multidão impressionante, superior em número de marchantes àquela realizada há umas semanas na sequência do atentado de Barajas levado a cabo pela ETA."

Esta afirmaçao é muito curiosa. Estava a pensar escrever que é mentira mas nao o posso fazer porque nao sei o que é para si uma multidao impressionante. Além disso é verdade que o número de manifestantes ontem foi ligeiramente superior à anterior. O que me parece é que o Fernando dá como certo o número dado pela Comunidade de Madrid. Nao sei como chega a essa conclusao quando nem o próprio El Mundo o faz. O melhor mesmo é visitar este link para ver como se fazem os cáculos aproximados:

http://manifestometro.blogspot.com

(Convém referir que o manifestómetro é feito por um grupo de jovens voluntariamente que publica fotos e realiza cálculos sujeitos às criticas de todos nós. A Comunidade de Madrid que é paga por todos nem se dá ao trabalho de explicar como realiza os cálculos. Pior ainda é que os meios de comunicaçao nao se dao ao trabalho de realizar os seus próprios cálculos. Que triste.)

Parece que a Comunidade de Madrid utiliza 39 pessoas por m2 para chegar ao milhao e meio. Eu, que tive a oportunidade de estar presente (nao como participante) nas duas manifestaçoes, nao me senti mais apertado ontem. Mas notei uma diferença: mais de 400 autocarros, pagos pelo PP, estacionados na cidade.

Mais curioso ainda é verificar que alguns meios de comunicaçao utilizaram os dados do manifestómetro para contabilizar a manisfetaçao anterior mas para a de ontem nao. Porque será? Milhao e meio.... seria para morrer a rir se nao fosse tao patético.

Outra curiosidade da manifestaçao de ontem foi esta: "El himno de España cerró el acto en una vulneración de un decreto de octubre de 1997 aprobado cuando José María Aznar --también presente en la marcha-- era presidente del Gobierno. El decreto establece que la Marcha Real solo puede interpretarse en actos militares, de la Casa del Rey, del presidente del Gobierno, de homenaje a la bandera y de partidos de la selección española. La norma faculta al Ministerio del Interior para abrir expediente sancionador en caso de que sea vulnerada."


Mas falando de manifestaçoes, mais importante que a de Madrid foi a organizada pelo Monsenhor Blázquez (Bispo de Bilbao e presidente da Conferencia Episcopal Española) em Bilbao:

http://www.elcorreodigital.com/vizcaya/prensa/20070204/portada_viz/blazquez-admite-iglesia-vasca_20070204.html

1:14 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

A manifestação foi impressionante, sendo certo que não valem nem os números da polícia, nem os da Comunidade da Madrid, para fazer as contas. Mas o mais importante daquilo que escrevi, parece-me, está na aparente "irreversibilidade" da radicalização da vida política espanhola. E isso, visto de Lisboa, não trás nada de bom. Antes pelo contrário. Nunca Portugal, ao menos desde o fim das guerras de independência no século XVII, ganhou com uma Espanha em crise profunda, daquelas que revolvem as suas entranhas.

3:20 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Esta manifestaçao foi tao impressionante como a anterior, pelo menos em termos de assistentes. A mim muito sinceramente ambas me pareceram muito pouco impressionantes e só vieram provar que a maioria está tao farta de uns como de outros. Já agora, que palavra utilizaria para a manifestaçao de apoio a Miguel Angel Blanco ou para as manifestaçoes contra a guerra de Iraque?

É verdade que a segunda parte do post é a mais interessante. Daria sem dúvida para uma troca de ideias interessantíssima. Aparentemente a situaçao está radicalizada mas penso que a realidade é um bocado diferente. O que quero dizer é que o que se passa é como um jogo de futebol em que os incondicionais de cada lado estao, mais do que nunca, constantemente a fazer muito barulho enquanto a grande maioria está bastante cansado do jogo.

Para mim o mais importante é atingir a descentralizaçao total (minimizar o estado) e se possível a independência. Parece-me um objectivo legitimo e que só assusta os que tudo querem controlar desde Madrid (nacionalismo castelhano adepto do absolutismo centralista) e os que vivem à custa dos impostos de algumas comunidades (o chamado café para todos deveria terminar já).

Em relaçao ao que se possa pensar ou deixar de pensar em Lisboa o que me parece é Portugal, assim como a França, se deve manter neutral.

4:42 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Não sei se Portugal ou a França se devem manter neutrais. Seria coisa nunca vista. A desintegração do estado espanhol terá grandes consequências não apenas para os espanhóis. Terá consequências para os seus vizinhos e para toda a Europa. Por outro lado, convém recordar que para que as coisas comecem a correr mal não é preciso que todos espanhóis apoiem, já, um dos bandos. Certo é apenas que o terão que fazer mais tarde. Ou melhor, quando for demasiado tarde.
É claro que as manifestações contra a guerra no Iraque em Espanha foram "impressionantes". Mas recordo que esse não foi apenas um caso espanhol. Também concordo que já houve outras manifestações contra o terrorismo bem mais "impressionates" em Madrid.

11:18 da manhã  

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