terça-feira, janeiro 30, 2007

Professor único?

Ainda não se encontram definidos os contornos da proposta que se está a forjar de dotar os alunos portugueses de um professor único no 2.º Ciclo, ou seja, nos actuais 5.º e 6.º anos. A história chegou-me aos ouvidos por via de uma conhecida que se quer fazer professora profissional. Na história que me foi contada, a ideia era não «traumatizar as crianças» vindas da instrução primária com a passagem abrupta de um para vários professores no ciclo preparatório. Haveria apenas um único professor para acompanhar as crianças durante seis anos.
A única notícia que descobri na Internet sobre o assunto, foi esta, na TSFonline. Trata-se de uma versão mais soft da história ouvida, mas não completamente esclarecedora: no 2.º Ciclo (5.º e 6.º anos) passaria a haver um professor-tutor responsável pelo ensino de Português, Matemática, Ciências da Natureza, História, Geografia de Portugal. Um dirigente da Fenprof, Francisco Almeida (o qual, apesar do apelido, não é da minha família), já criticou o projecto afirmando ser «impossível um único docente preparar tantas áreas».
A crítica à exigência de preparação do docente-tutor parece-me pertinente. Na discussão que tive com outras pessoas acerca do assunto, outras desvantagens do sistema vieram à baila. Todos nós sabemos como nessas tenras idades a aprendizagem é inseparável da relação que se estabelece com o professor. Quantas vezes um aluno, mesmo inconscientemente, é classificado como mau por um professor numa determinada disciplina e, quando muda de professor, passa a ser bom? Ou quantos alunos têm resultados muitíssimos desiguais em diferentes disciplinas? Se um aluno, de dez ou onze anos, embirrar com um professor-tutor, ou vice-versa, os resultados serão desastrosos. Mas, pelo contrário, se um aluno adorar o seu professor-tutor, a brusca passagem de um professor para dez, aos treze anos, não será menos traumática do que a actual chegada ao 2.º Ciclo.
Falando pela minha experiência, eu senti, nesse súbito acréscimo de professores ao chegar ao «ciclo preparatório» a sinalização de um grau de maturidade. Já não era criança como na instrução primária e gostei de me sentir mais adulto. E quer-me parecer que, actualmente, os miúdos de dez, onze anos, já são mais adolescentes do que crianças graças aos ipods, à Internet, aos telemóveis, à televisão por cabo e outras parafernálias que não existiam nos «meus tempos» de pré-adolescente.
Até mais ver, o «eduquês» que prepara a aceitação do professor-tutor, esconde uma abordagem «simplex» das questões de ensino não descortinando grandes diferenças entre «professor único» e «cartão único» com funções integradas. Talvez a curto prazo o professor único saia mais barato, mas, a longo prazo, também e principalmente na educação, o barato sai caro.

2 Comments:

Anonymous Filipa Afonso disse...

O texto é muito pertinente. Parece haver realmente alguma leviandade na utilização da expressão "traumatizar as crianças" para falar da passagem de um professor para vários professores. Para além da evidente diminuição da qualidade de ensino, não representará esta proposta uma infantilização da criança?

Parabéns!
Um abraço.

3:32 da tarde  
Blogger Marco disse...

Eu também tive essa sensação de maturidade.
E não foi só por ter professores: também havia aquele ritual de escrever os sumários em cada aula, ter horários certos, ter notas na escala de 0 a 20, e estar numa turma onde não conhecia ninguém.

E não fiquei traumatizado por causa dessa mudança, nem me lembro de alguma vez ter ouvido falar em traumas dessa transição.

10:28 da tarde  

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