quarta-feira, outubro 11, 2006

MITo ou Realidade

O acordo com o MIT (o tal que era um mito, que provava que o Governo só fazia propaganda) afinal existe. Concordo, no entanto, com os que dizem que o problema fundamental é saber se estes projectos terão continuidade e servirão para mudar a lógica de funcionamento da investigação em Portugal. A internacionalização parece-me indispensável, mas para que ela dê resultados duráveis e úteis aqui em Portugal falta algo de essencial.
Há tempos Vital Moreira queixava-se da macrocefalia universitária de Lisboa. Bom seria se fosse verdade, mas infelizmente não é. (Aliás, falar de macrocefalia num país tão pequeno tem algo que se lhe diga!) Um bom exemplo de macrocefalia é precisamente uma cidade como Boston (e há muitas mais nos EUA), onde convivem alegremente o MIT e Harvard. O grande problema das instituições universitárias portuguesas é exactamente o oposto. Falta-lhes a massa crítica essencial para levar a cabo projectos com dimensão suficiente para atrair apoios privados e cérebros estrangeiros.
Por isso, vejo a possível criação de um super-instituto de investigação no campo da saúde no Porto como potencialmente algo muito importante. Espero que vá para diante. Espero que o governo faça tudo para apoiar esse tipo de iniciativa. Espero que em Lisboa (e alhures) se siga este bom exemplo.
ADENDA: O acordo visto pelo MIT, cortesia da sempre atenta Bloguítica.

12 Comments:

Blogger JSA disse...

Vital Moreira não é exactamente um bom exemplo. Não tanto por ele, mas pelo local onde lecciona: Coimbra, o supra-sumo dos professores por direito divino.

Concordo que falta massa crítica ao país, mas também falta que se removam algumas obrigações de ensino aos professores, assistentes e estudantes de doutoramento no país. Falta que se envolvam os restantes estudantes na investigação, fazendo teses finais, ou seminários ou projectos para um estudante de doutoramento, com direito a ter o nome como um dos autores no artigo a publicar mais tarde. Falta que se deixe de remover o espírito crítico aos estudantes e que os impede de pensarem pelas suas cabecinhas. Falta, enfim, remover aquele peso morto que é o pensamento típico das universidades portuguesas.

Também por isso gosto da ideia de um MIT (ou outro tipo de instituto de investigação qualquer) para o país, seja onde for (a excelência atrai excelência, seja onde for). Já estamos demasiado presos ao mofo.

9:06 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

"uma cidade como Boston [...] onde convivem alegremente o MIT e Harvard"

Deixando de lado o pormenor de que o MIT e Harvard não ficam em Boston, mas sim em Cambridge, que é um subúrbio de Boston do outro lado da baía, quero fazer notar que Harvard é uma universidade muito pequena (8.000 estudantes) e o MIT também é relativamente pequeno. O MIT e Harvard juntos têm muito menos estudantes do que a Universidade de Lisboa. Portanto, dificilmente podem ser considerados como um sinal de macrocefalia de Boston.

São universidades de grande qualidade, certamente, mas de muito pequena dimensão, mesmo por padrões portugueses.

Luís Lavoura

10:01 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

"super-instituto de investigação no campo da saúde no Porto"

A macrocefalia em Portugal exprime-se em parte por técnicos qualificados não aceitarem trabalhar a não ser em grandes centros urbanos.

Eu pergunto porque é que o super-instituto de investigação deve ser no Porto em vez de ser, suponhamos, numa aldeia da serra da Gardunha, próxima do Fundão.

Se há coisa que os EUA nos ensinam, é precisamente a recusa da macrocefalia das cidades. Grandes institutos de investigação americanos estão situados em locais isolados, no meio do campo, longe de qualquer cidade.

Para Vital Moreira, a recusa da macrocefalia resume-se à opção entre Lisboa e Coimbra. Para mim, o que importa e interessa é recusar o paradigma das grandes cidades.

Luís Lavoura

11:43 da manhã  
Blogger João Pedro disse...

Totalmente de acordo com este segundo comentário de Luís Lavoura.

4:23 da tarde  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Eu acho óptimo que as universidades portuguesas tenham acordos com o MIT. O que não percebo é por que razão o Governo tem de estar metido nisso. Desconfio que numa leitura atenta do acordo (já é público?) se descubra que os contribuintes perdem alguma coisa...

4:45 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Eu também desconfio, Luís Aguiar Santos.

Entretanto, percebo o interesse do MIT neste acordo. As universidades americanas têm falta de estudantes qualificados no seu próprio país. Cada vez há menos americanos com capacidade e vontade para estudar engenharia e ciências. Até há pouco tempo as universidades americanas viviam do afluxo de estudantes asiáticos, sobretudo chineses. Mas, com o 11 de Setembro e com o desenvolvimento da Ásia, esse afluxo está a secar. Cada vez menos estudantes estrangeiros afluem aos EUA. Então, já que os estudantes não vêem até ao MIT, tem que ser o MIT a ir até aos estudantes. O MIT vem para Portugal para atrair, a prazo, os melhores estudantes para lá. Vem cá para pescar cérebros (uma coisa que Portugal já mostrou estar abundantemente disposto a fornecer ao estangeiro, nomeadamente através de um sistema de bolsas que favorece quem vai estudar para o estrangeiro com muito mais dinheiro do que quem fica em Portugal).

Luís Lavoura

9:33 da manhã  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

O que o Luís Lavoura diz faz sentido.

11:25 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro JSA concordo no geral (só não sei se Coimbra é assim tão diferente, mas nunca estudei lá.)

Caros Luises e João Pedro
Cambridge é um subúrbio de Boston, como Southwark é um subúrbio de Central London, aliás o rio Charles é um bocadinho mais curto que o Tamisa. Há um linque para um artigo na Atlantic sobre os números que mostram a macrocefalia nos EUA. As grandes universidades ou estão numa grande cidade ou no "campo", mas a uma ou duas horas delas.

Mas concordo que campus no "campo" ainda que relativamente próximos e com bons acessos a cidades com massa crítica suficiente seriam a solução ideal. A fusão (ou criação)de instituições de investigação poderia ser o pretexto para isso mesmo - ou para a recuperação de edifícios em zonas históricas (de preferência com jardim) mas deve ter lugar independemente disso.

PS Já agora, os números que o Luís Lavoura cita são os de licenciados por ano (4000 MIT, 6000 Harvard), mas estas são instituições de elite voltadas para a investigação e para os mestrados e doutoramentos que atingem números gigantescos para Portugal (6000 MIT e 13000 para Harvard!!!)

12:29 da tarde  
Anonymous Luis Oliveira disse...

Caro Luís Lavoura:

Eu acho que nestas coisas a melhor forma de atrair alunos de doutoramento é sempre olhar para dentro e melhorar o que possa estar menos bem, e não manipular remunerações.

Acrescento à laia de declaração de interesses que sou suspeito por me doutorado no estrangeiro.

8:26 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

"manipular remunerações"

Claro que as universidades americanas e inglesas contam com a sua boa qualidade para atrair estudantes de doutoramento.

Mas também é muito simpático para os estudantes portugueses dessas universidades saber que, frequentemente, vão ganhar - sob a forma de uma bolsa de Portugal - duas vezes mais do que os seus colegas de outras nacionalidades. E que regressarão a Portugal (se regressarem) já com poupanças suficientes para comprar uma casa e um carro, enquanto que os seus colegas que estudaram em Portugal não puderam poupar nada.

Seria bom que não houvesse manipulação das remunerações. Que dessem aos estudantes portugueses no estrangeiro bolsas exatamente do mesmo valor que dão aos estudantes em Portugal.

Luís Lavoura

10:25 da manhã  
Anonymous Luis disse...

"Mas também é muito simpático para os estudantes portugueses dessas universidades saber que, frequentemente, vão ganhar - sob a forma de uma bolsa de Portugal - duas vezes mais do que os seus colegas de outras nacionalidades."

No Reino Unido existe de facto uma disparidade entre o rendimento dos bolseiros financiados pela FCT e os bolseiros ingleses. Não é o dobro, mas essa disparidade existe.

Nos EUA não posso comparar porque não conheço a situação, o que é certo é que um doutoramento nos Estados Unidos dura sempre mais do que um doutoramento na Europa.

"E que regressarão a Portugal (se regressarem) já com poupanças suficientes para comprar uma casa e um carro, enquanto que os seus colegas que estudaram em Portugal não puderam poupar nada."

Isto não é francamente verdade porque o custo de vida no local onde eu vivi era francamente superior ao custo de vida em Portugal, portanto não tenho poupanças para comprar carro muito menos casa, se tivesse um conjugue a trabalhar na função pública talvez corresse esse risco ...

3:37 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caros Luíses

Os alunos ingleses têm uma bolsa base mais baixa, mas frequentemente também têm acesso a uma série de outras pequenas bolsas ou dispensas de despesas. Além disso não têm tantas despesas como quem vem de fora.

Para mim, que estou a terminar um doutoramento fora é absolutamente evidente que seria muito mais confortável financeiramente (e não só) ficar em Lisboa do que ir fazê-lo a Londres. (A diferença entre as bolsas em Portugal e no estrangeiro não dá sequer para cobrir o valor da renda em Londres, isto sem falar no custo de vida na capital britânico andar oficialmente à volta do terceiro lugar a nível mundial).

Acho que poderia haver escalões de bolsa diferenciados para custos de vida diferentes (e.g. Brasil, Portugal, Inglaterra). Mas também me parece evidente que o pais DEVE estimular as pessoas a fazer doutoramentos fora! Não porque seja impossível fazer um bom doutoramento aqui, mas porque o meio é muito pequeno e dos maiores problemas da Academia portuguesa é o ambiente doentio de capelas completamente fechadas que isso gera. Se internacionalizar é a prioridade isso parece-me indispensável. Além disso há algum meio académico vibrante onde, por sistema, as pessoas façam licenciatura, mestrado e doutoramento no mesmo sítio? Eu não conheço.

7:57 da tarde  

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