domingo, outubro 08, 2006

Água


Algo vai mal na crítica cinematográfica portuguesa, quando um filme como Água pode passar despercebido, mesmo a um leitor de jornais e cinéfilo como eu. Não me lembro de ter lido uma única crítica a este filme que passa actualmente em apenas duas sessões de uma sala do Monumental. Valeu a pena vê-lo. É um filme histórico, passado em 1938. Conta a história de uma criança que fica viúva aos sete anos. De acordo com os textos religiosos milenares do Manu, as viúvas tinham três opções: serem queimadas na pira com o marido; casarem, em caso de autorização da família, com um irmão mais novo do falecido; levarem uma vida de privações. Com o desenrolar da história, vamo-nos apercebendo que a terceira hipótese é a pior. Chuyia, a criança viúva, é recolhida num ashram para viúvas hindus, mulheres que o seu estado tornou meio-mortas, vivendo da caridade e da prostituição semi-clandestina de Kalayani, uma mulher de beleza radiosa, a única cujo cabelo não é rapado.
As poucas linhas já escritas acerca do enredo podem dar uma ideia errada do filme. Deepa Mehta, uma realizadora com obra feita, não segue as pisadas de um Nagisa Oshima, olhando apenas para o lado sórdido, mascarado pelos tabus de uma sociedade, nem envereda pela abordagem miserabilista dos humilhados e ofendidos típica de algum cinema português. Talvez a formação hindu desta realizadora canadiana a beneficie quando procura reunir, numa película, a beleza e o horror do mundo, a integridade e a hipocrisia, o amor e o desprezo, o desespero e a esperança. O seu olhar sobre a religião encontra-se contaminado desta dualidade: ela pode inspirar as formas mais violentas de aniquilação do ser humano ou alimentar a sua libertação. Nas palavras de Mahatma Gandhi: «durante muito tempo pensei que Deus era a verdade, agora penso que a verdade é Deus». O reforço mútuo e o conflito entre fé e consciência trespassam o filme, condensando-se numa personagem central – a viúva Shakuntala – e não serão estranhos ao facto de Deepa Mehta se ter licenciado em Filosofia.
Filme de ideias e de causas, Água não se deixa reduzir a nenhuma instância exterior a esse mundo de sombras e de luzes que é o cinema. Só pela banda sonora ou pela fotografia valia a pena ser visto. Mas é também servido por uma montagem fluida, actores magníficos, diálogos subtis ao serviço de personagens densas.
As controvérsias levantadas por fundamentalistas hindus, acusações de plágio ou por um retrato desactualizado da sociedade indiana – quando se trata de um filme histórico que projecta no movimento independentista de Gandhi uma esperança de libertação daquela situação concreta – são questões secundaríssimas face a um filme que toca os extremos da vida.

7 Comments:

Blogger O Universalista disse...

O que é um "Ashram"? Tem noção do que acabou de escrever?

Com o desenrolar da história, vamo-nos apercebendo que a terceira hipótese é a pior. Chuyia, a criança viúva, é recolhida num ashram, uma casa de viúvas(...)

É que um Ashram não é uma casa de viúvas ou de mulheres meio-mortas, etc.

Talvez um pouco de investigação sobre a cultura hindu o possa ajudar:

Um Asram (pronúnciado "aashram") na India antiga era um retiro Hindu onde sábios vivam em paz e tranquilidade no meio da natureza. Exercícios físicos e espirituais, tais como as várias formas de Yoga, eram regularmente praticados pelos residentes.

De resto, o filme parece-me muito interessante e estou bastante tentado a ir vê-lo.

A propósito, concordo consigo, a crítica portuguesa deixa de facto muito a desejar.
Abraço

8:37 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Caro universalista,

Não sou especialista em cultura hindu. Retirei a palavra de um texto sobre o filme na wikipedia, para o qual fiz um link. Pelo sim, pelo não, até mais esclarecimentos, vou retirar a palavra do post.
Abraço

10:37 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Universalista,
tal como vem explicado na entrada da Wikipedia que (parcialmente) transcreveu, ashram é palavra etimologicamente derivada do sânscrito ashraya. Esta significa, literalmente "protecção". Os ashram foram ermitérios de ascetas hindus e de yogins, tornando-se progressivamente locais de aprendizagem e romagem.Daí que ashram tenha ganho o significado de "lugar de trabalho árduo", nos sentidos espiritual, filosófico e religioso. Contudo, a sua conotação primitiva não desapareceu, e tem servido na zona Índica, até ao presente, para designar refúgios, casas de acolhimento que fazem o que hoje designamos por assistência social.
Ainda hoje há uma ONG chamada Ashram International, que promove precisamente esse trabalho social em países da Ásia (vide www.ashraminternational.org)

Será seguramente nesse sentido que a expressão foi usada, e à qual o João Miguel se reporta, correctamente.

11:15 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Ana Cláudia,

Obrigado pelo comentário. Fiz mais umas pesquisas na internet que me confirmaram que a formulação «ashram para viúvas hindus» está correcta.

11:55 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Está na mesma séria que o filme "Fogo" da mesma autora, também sobre a condição da mulher na Índia.

É interessante que se fale muito, hoje em dia, cá no Ocidente, da dramática condição da mulher no "Islão" - como se todos os países islâmicos fossem idênticos - mas se fale pouquíssimo sobre a, em muitos casos muito pior, condição da mulher no sub-continente indiano - em particular no de religião hindu.

Luís Lavoura

10:44 da manhã  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Luís, concordo com o seu comentário, na medida em que, de facto, a condição da mulher islâmica na Indonésia ou em Portugal, é muito diferente da sua condição, por exemplo, na Arábia Saudita . Acho que importa mais para a análise desta questão algo que subjaz (e é anterior) às religiões vigentes, utilizadas tantas vezes para reforçar a disparidade entre géneros, que tem que ver com o milenar patriarcalismo na base da organização da maioria das sociedades humanas, com a reprodução da família, com a transmissão linear da propriedade.

3:03 da tarde  
Blogger Susana Nunes disse...

Este é dos melhores filmes que já vi, sem dúvida alguma.

7:17 da tarde  

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