quarta-feira, agosto 16, 2006

O estrangeiro reconhecido

Profissão: Repórter/The Passenger, de Antonioni, que voltou a ser distribuído por todo o mundo em cópia restaurada e, em Portugal, está em reposição no Nimas, leva tempo a digerir. Quando o filme começou a fazer sentido para mim, cheguei à estranha conclusão de que não batia certo com as críticas lidas nos jornais ou na Internet. A maior parte dos críticos oscila entre abstracções sobre o universo de Antonioni ou aspectos da película. Acerca do realizador são citados com frequência os clichés do existencialismo, incluindo a alienação, a irredutível solidão das personagens e a insignificância da sua vida. Quanto a Profissão: Repórter é sublinhado o papel de Jack Nicholson, o espantoso plano-sequência final, de seis ou sete minutos, que levou onze dias a filmar, as paisagens do deserto magrebino. Para referir o que este filme tem de diferente dos outros de Antonioni escrevem-se expressões como «o único thriller sobre a depressão» ou «road movie existencialista».
O «plot» resume-se em meia-dúzia de linhas: um jornalista (Jack Nicholson), 37 anos, casado, profissional bem sucedido, decide trocar de identidade com um homem que morre num quarto próximo do seu, num hotel perdido no Saara. A decisão permanece um enigma. David Locke, o jornalista, ao tentar fugir ao tédio de uma vida normal, torna-se o fugitivo de ameaças bem mais concretas: a sua nova identidade é a de um traficante de armas, Robertson, a abater por um Governo africano. Durante a sua fuga pelo Norte de África e pela Europa encontra uma jovem estudante de arquitectura (Maria Schneider) com a qual partilha uma nova vida, iluminada pelo desejo de ser outro. A mulher do jornalista, Rachel Locke, e o antigo editor, também se tornam perseguidores involuntários dos fugitivos, na esperança de esclarecer a inesperada morte de David Locke.
Um romance de Alberto Morávia faz parte dos adereços do filme, mas foram os versos de Mário de Sá-Carneiro e de Fernando Pessoa que me vieram à mente para reflectir no enigma. Como o primeiro, a personagem de Jack Nicholson podia dizer não ser nem David Locke, nem Robertson, nem ele nem um outro, mas «qualquer coisa de intermédio/pilar da ponte do tédio». Como Pessoa, a personagem «finge tão completamente/que chega a fingir ser dor/a dor que deveras sente». Esta aproximação a Pessoa surgiu-me numa sequência para mim fundamental do filme, que a crítica geralmente ignora. É uma sequência em que, um africano responde ao jornalista afirmando que as suas perguntas dizem mais acerca do entrevistador do que do entrevistado. David Locke defende-se argumentando que as suas perguntas são «sinceras». O africano, que, tendo sido educado na Europa passa por feiticeiro em África, afirma que, para chegar à verdade, não basta «sinceridade», é preciso «honestidade».
A assunção da identidade de Robertson por David Locke, não é apenas uma fuga, mas também uma busca de verdade. Num filme anterior, Blow-Up, Antonioni colocara a personagem de um fotógrafo perante a impossibilidade de captar o sentido último das imagens. Em The Passenger o jornalista passa para um outro lado, que ainda não será o lado das respostas, mas um lugar de risco mais íntimo da verdade. Muitos críticos sublinham o niilismo do filme, pois a personagem que calça os sapatos de defunto acaba por morrer e a esperança de fuga revela-se um suicídio. Eu dei valor às palavras da ex-mulher e da companheira de viagem perante o corpo de um homem que viveu duas vidas, a de David Locke e Robertson. A ex-mulher não o reconhece. Mas a jovem diz que reconhece o homem ali deitado. The Passenger é a história de um homem que arrisca e perde a vida para ganhar uma alma. E ser reconhecido nesta conquista, ainda que só por uma mulher.

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