sexta-feira, agosto 18, 2006

História de Amor


A propósito destas palavras escritas por Adriano Moreira e publicadas hoje no Diário de Notícias (palavras que me pareceram particularmente bem escolhidas):
A sua vida íntima […] é exemplar de dedicação à excepcional mulher que foi Teresa Queirós de Barros […]; o sólido afecto paternal sem quebra e tolerante para as livres decisões dos filhos, como recorda a notável filha Ana Maria […]: tudo explica a adesão crescente que [Marcello Caetano] recebeu durante os longos anos de espera.”
Depois de ter escutado na entrevista dada por Ana Maria Caetano na RTP as suas palavras sobre a tão forte e tão especial relação de amor que Marcello Caetano e sua mulher sempre mantiveram, recordei-me deste excerto de uma carta enviada por Theotónio Pereira a Marcello Caetano, acabara este de casar. Tinham passado quase cinco anos desde que o casamento de Theotónio Pereira se realizara. A missiva foi escrita em resposta a uma outra que Marcello Caetano lhe endereçou durante a sua lua-de-mel [“Devo-lhe as mais variadas e inesquecíveis provas de amizade. Mas esta de me escrever em plena lua de mel, deixou-me enternecido e a um tempo perturbado, hesitante nos termos da replica, receoso de lhe não saber dizer com que alvoroço recebi notícias de gente tão feliz e tão amiga – notícias que me parecem vir de um mundo distante.”]. Nela exprimiu Theotónio Pereira aquela que era a sua impressão mais sincera sobre o significado do casamento e do amor que o justificava e sustentava, o da mais profunda e sincera espiritualidade:
É costume velho e venerável dizer aos noivos que se lhes deseja lua de mel para toda a vida. Eu não receio repetir-lho, porque creio que é o voto mais sincero e mais belo e também aquele que encerra mais verdade. Lua de mel é o estado de espírito alado e triunfante, a claridade que emana da ½ dúzia de linhas que você me escreveu. Guardá-lo para toda a vida – de corpo e alma como o Evangelho o ordena – é conservar acesa uma chama que o mundo não pode apagar.
[…]
Eu creio pois nesse luar da alma que brilha na vida dos corações fieis e não receia nem o outono nem o inverno da passagem por este mundo – a eternidade do amor que parece tão curta em certos momentos em que a vida parece não bastar.
Deus lha conserve imensa e perfeita! E não há par de noivos que mais a tenha feito evocar, a quem [sic.] considere na serena harmonia com que Deus os juntou.
” [“Carta de Pedro Theotónio Pereira para Marcello Caetano.” 8 de Novembro de 1930 (documento n.º 16). AMC, Correspondência, PEREIRA, Pedro Teotónio, Caixa 44, n.º 1-34.]
Aquando do falecimento de Teresa Queirós Barros, Theotónio Pereira, já muito doente, não deixou mesmo assim de tentar consolar o seu velho companheiro : “Já éramos amigos há alguns anos quando lhe ouvi a primeira confidência do seu romance com a Teresa. Lembro-me da nossa alegria no dia do casamento e do que a Isabel apreciou assistir à festa. E nos tempos que se lhe seguiram, passamos juntos dias muito felizes.” “Carta de Pedro Theotónio Pereira para Marcello Caetano.” Dafundo, 14 de Janeiro [de 1971] (documento n.º 132). AMC, Correspondência, PEREIRA, Pedro Teotónio, Caixa 44, n.º 126-155.

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