quinta-feira, agosto 17, 2006

É assim que eu vejo Marcello Caetano.

Se fosse vivo, Marcello Caetano cumpria hoje 100 redondos anos. Não quis o destino que assim fosse. O Diário de Notícias trás hoje um caderno sobre o evento (tanto quanto percebo indisponível on-line). O Público é generoso com o centenário dando-lhe a sua primeira página. Já comprei e já li o Diário de Notícias. O Público ainda não consegui comprar e, portanto, ainda não li (tirada à José António Saraiva).
Infelizmente, e com excepção do depoimento de Adriano Moreira – e, em parte, do de Jorge Sampaio –, o destacável do Diário de Notícias é de uma pobreza confrangedora. Graficamente é uma confusão e os textos de Fernando Madaíl e Armando Rafael têm demasiados erros para o meu gosto – os mais gritantes são aqueles que parecem garantir que António Sardinha não terá morrido e sido enterrado em Janeiro de 1925 mas depois, que Marcelo Caetano teria 26 anos quando, em 1929 [sic.], Theotónio Pereira o apresentou a Salazar, que em 1944 Armindo Monteiro podia ter regressado ao Governo, ou que a guerra em Angola foi precedida no seu início (Fevereiro-Março de 1961) pela ocupação do chamado Estado Português da Índia por tropas da União Indiana (em Dezembro de 1961).
Quando vejo estas coisas em que se tratam temas de que tenho por defeito profissional obrigação de saber alguma coisa, imagino sempre os disparates que todos os dias leio, vejo ou ouço – sem me dar conta – sobre aquilo de que pouco ou nada sei. A sociedade de informação em que vivemos é assim.
De qualquer modo, e ao menos no Diário de Notícias, embora tom dos “comentadores” não seja esse, perpassa a imagem do Marcello Caetano académico brilhante e político com boas intenções, como se fosse possível compreender e útil julgar um político sob tal prisma. Tanto quanto sei foi Vasco Pulido Valente vquem ulgarizou esta interpretação num ensaio publicado na KAPA já lá vai bem mais do que uma década, e continua a fazê-lo, com outras personagens, ao publicar um pobre – historiograficamente – ensaio biográfico sobre Paiva Couceiro. Não me parece que seja através da suas intenções a melhor forma de conhecer quem quer que seja, e muito menos Marcello Caetano. Líder político de um regime autoritário com quase quarenta anos quando chegou ao seu topo, Marcello Caetano terá então pensado ser possível reformá-lo e, depois, talvez democratizá-lo. Tinha intenção de descolonizar bem, de criar um verdadeiro Estado social, de atrair para o regime aqueles que fora dele ou nas suas franjas seriam aproveitáveis. Enganou-se redondamente por ter sido sempre um político tão incompetente como ambicioso. Aos vinte e quatro, vinte cinco anos, por se considerar um ás no direito, achava-se, no fundo, fadado para, num curto espaço de tempo, ser reconhecido por Salazar como seu sucessor. Convencera-se de que um bom técnico podia ser, ao menos no seu caso, um político de excepção.
Marcello Caetano às vezes era mesquinho e frequentemente rancoroso. Oportunista também. Mas, sobretudo, indeciso. Não foi apenas depois de 1968 que mostrou medo e indecisão. Desde muito cedo usou e abusou desta sua última qualidade, embora em alguns momentos, talvez menos próprios do ponto de vista político, tenha ido demasiado longe na franqueza e na arrogância que usou com Salazar. Que se saiba foi dos poucos que tendo “servido” o “presidente do Conselho” se atreveu a tanto. Mas mais valia ter ficado calado se com isso tivesse mostrado mais tino político e, portanto, criado condições que lhe permitissen pôr em prática com êxito políticas tão cheias de boas intenções. Salazar e muitos dos seus indefectíveis percebiam Marcello. Talvez o tenham deixado avançar em Setembro de 1968, não porque não tivessem alternativa, mas para o queimar e, assim, verem-se para sempre livres da sombra liberal que desde o fim da guerra pairava sobre o Estado Novo e que, em 1939-1940, já fazia correr, como recorda hoje Adriano Moreira no seu artigo, que seria o sucessor de Oliveira Salazar (nem vale a pena recordar aqui quantos havia naquela altura, no seio do regime, mais aptos e com mais apoios para ocupar o lugar do presidente do Conselho, a curto, médio ou longo prazo).
Marcello Caetano viveu quase sempre politicamente enganado – mesmo quando parecia perceber, e percebia, aquilo que se passava à sua volta. Mas política não é pensamento, é acção. Bom teria sido que não se tivesse enganado tanto nem tantas vezes quando agiu ou ficou paralisado! As suas ilusões e limitações, como homem e como político, fizeram com que o país pagasse um elevado preço, quaisquer que tenham sido as responsabilidades – e não foram poucas – daqueles que o precederam e dos que vieram depois. Poder-se-á considerar que não vale a pena criticar tanto alguém só por ter tentado, e muito, supostamente para o bem da pátria. Não concordo. Portanto, é assim que eu vejo o político Marcello Caetano.

4 Comments:

Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Ponto de vista interessante, embora a minha opinião esteja mais influenciada pelo texto de VPV. Concordo com o que dizes da biografia de Paiva Couceiro, fraca e tendendo a agigantar uma fraca figura...

11:04 da manhã  
Blogger CLeone disse...

Muito bom post.
CL

11:52 da manhã  
Anonymous Luis Nuno Rodrigues disse...

Boa Fernando!

10:47 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Obrigado pelos elogios. Se me permitem, faço-o especialmente ao Luís Nuno.

6:56 da tarde  

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