domingo, julho 02, 2006

Nunca me deixes

Kazuo Ishiguro é um autor que tenho seguido com interesse crescente. O meu primeiro contacto com a sua obra foi indirecto, através da adaptação cinematográfica de Os Despojos do Dia. A leitura de Os Inconsolados confirmou as minhas suspeitas de que se tratava de um escritor a seguir. Desde Setembro passado que namoro a edição portuguesa de Nunca me deixes. Cacei-a na Feira do Livro. Li o romance de um trago. Trata-se de um romance de ficção científica sobre a clonagem. O facto da frase anterior não dar a mais pálida ideia do livro é prova que estamos perante uma voz original, capaz de se apropriar e de subverter qualquer género. Uma vez ouvi um autor de ficção científica portuguesa, numa conferência sobre o tema, afirmar que o mais importante neste género literário era produzir o «efeito uaauuu». Se esse for o critério para definir um género, então este não é um livro de ficção científica. Não adianta argumentar que se trata de um romance de História alternativa localizado algures no Reino Unido no final da década de 90. E que neste mundo alternativo, desde o desfecho da II Guerra Mundial, se produzem clones humanos que chegarão a adultos, mas dificilmente passarão dos trinta anos, pois destinam-se a doar órgãos e geralmente «completam o ciclo» após a quarta doação. A arte de Ishiguro constrói personagens que lidam com um mundo inexistente de um modo estranhamente reconhecível.
A narrativa divide-se em três partes: infância e adolescência dos clones no colégio; juventude na Herdade e vida adulta «cá fora», como «ajudantes» e «doadores». É uma voz feminina, doce e consoladora, que investiga no passado a forma peculiar da mente humana negar o que sabe ou de só entender aquilo em que quer acreditar. A ficção científica cruza-se com o terror e o «romance de formação». A capacidade alegórica de Kafka mistura-se com uma introspecção digna de Proust, mas também com uma gestão apurada do «suspense» que nos faz chegar ao fim de cada capítulo com vontade de ler o seguinte. No final, o leitor não dirá «uaaauu» e talvez sinta horror e piedade, o efeito pretendido pelas tragédias gregas. Estas personagens de um tempo outro transportam nelas o veneno dos nossos dias.

2 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

Obrigada por este post João Miguel Almeiada. Vou tentar ler o livro. Não sei se é tão bom como parece, mas a sua descrição deu vontade de ler o livro

11:07 da manhã  
Anonymous Numa de Letra disse...


http://numadeletra.com/nunca-me-deixes-de-kazuo-ishiguro-63386

8:35 da tarde  

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