domingo, julho 02, 2006

Citação II


Ainda sobre Espanha e os seus nacionalismo, veja-se ainda este excerto de uma entrevista a Fernando Savater no “Mil Folhas” do Público da mesma data.
“Os nacionalismos foram a grande desgraça da Espanha moderna. No século XIX todas as tentativas de fazer uma Espanha moderna, liberal e democrática tropeçaram nos nacionalismos. Isso passou-se no século XIX e no século XX com a República e, desgraçadamente, passa-se hoje. O nacionalismo, que é o elemento mais reaccionário da política moderna, em Espanha uniu-se, estranhamente, à esquerda. A esquerda que sempre foi internacionalista! Hoje, coisas muito reaccionárias, como o estatuto catalão ou o que se prepara no País Basco, são vistas como avanços e como progressos esquerdistas, o que me parece absurdo. Já se viu que o estatuto catalão é um problema dos políticos. Após dois anos de lutas e confrontos chega o referendo e mais de metade da população não vota porque não lhe interessa nada esse problema. Ou seja, é um falso problema. Oxalá não cause mais danos.
[…]Que se respeitem as culturas mas não se inventem. Uma coisa é respeitar as línguas, outra coisa é haver perseguição de uma língua como o castelhano. São os falantes que têm direito à sua língua, não as língua que têm direito a procurar falantes. Na Catalunha e no País Basco considera-se que quem tem direitos é a língua: a língua tem direito a ser falada. Eu creio que são os falantes que têm direito a falar a sua língua. Se os falantes decidem falar outra, têm o direito de falar outra. O nacionalismo crê que os direitos têm-nos o território, a língua, tudo menos as pessoas. Hoje, no País Basco ou na Catalunha, uma pessoa não pode educar os seus filhos na língua que preferir, tem de educá-los obrigatoriamente na língua do território, o que é um retrocesso nas liberdades.”

2 Comments:

Blogger Heliocoptero disse...

A respeito do dever de conhecer uma língua, o que Fernando Savater parece esquecer é que a Constituição Espanhola actualmente vigente refere explicitamente o direito e dever de conhecer o castelhano.

A atribuição do mesmo estatuto ao catalão nada mais é do que uma equiparação legal com o objectivo de normalizar o seu uso na comunidade à qual é nativa.

3:16 da manhã  
Anonymous pepe disse...

Nós, portugueses, temos dificuldade em entender o fenómeno nacionalista no interior duma "nação". Se a "nação" é Espanha, pior ainda. E, porém, ninguém melhor do que nós, fora de Espanha, para dissertar 800 e tal anos sobre as virtudes do nacionalismo-nosso, não-espanhol.

Uma das faces desagradáveis do nacionalismo é o sentimento de exclusão: nós e os outros (outros=resto do mundo). Para piorar, o nacionalismo enquanto ideologia é uma perigosa patetice.

Mas quem pode negar a uma comunidade com lingua própria, território ancestral, e essas coisas que fazem a "nação", o direito a usar a língua e a assumir autonomia?

Uma das virtudes maiores da Comunidade Europeia é a capacidade, a meu ver, de relativizar o sentimento nacionalista e o de lhe dar espaço para se expressar.

Como em muitas coisas, com inteligência e bom senso resolvem-se muitas quadraturas do circulo, o problema é que são qualidades algo escassas ou pouco desenvolvidas quando o debate político e o espírito autonomista (independência da nação, da autarquia, a freguesia que quer ser concelho, etc), se associam por um projecto de poder.

1:11 da tarde  

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