sexta-feira, junho 30, 2006

O problema do passado


Ainda não li Conquistadores de Almas de Pinto de Sá. Ainda nem sequer consegui ver o livro à venda. Só fui informado da sua existência através da leitura de um artigo do Rui Ramos no Público, salvo erro, da semana passada. Hoje encontrei-me, no blog de Rui Bebiano, com uma leitura crítica do livro. Não vou agora, naturalmente, comentar aquilo que não li ou pronunciar-me em profundidade sobre críticas cujo objecto desconheço.
Mas lendo aquilo que os dois Ruis escreveram percebe-se que o livro interessa, ao menos em parte, de diferentes maneiras a uma certa esquerda e uma certa direita universitária. Esta lê e comenta Pinto de Sá com uma quase euforia que não esconde. É que Conquistadores de Almas parece mostrar à exaustão muito daquilo que os críticos e opositores das ideologias totalitárias de esquerda sempre defenderam. Consciente da razão que a história lhe deu e lhe dá, esta direita, na qual modestamente ouso incluir-me, está totalmente disponível para embarcar no tema.
Já a esquerda universitária vê com muita desconfiança exercícios como os de Pinto de Sá. Reconhece que há muito lixo escondido por baixo da alcatifa, lixo esse que só tem sido possível manter fora do alcance do escrutínio geral como consequência, entre outros factores, de um controlo objectivo que muita gente que no passado militou na extrema-esquerda exerce hoje sobre a generalidade dos media e do meio universitário. Sempre notei, aliás, que mesmo naquelas situações em que os antigos maoístas se transformaram em respeitáveis democratas de pendor social-democrata, "socialista democrático", liberal ou conservador, tentam tratar o tema da extrema-esquerda anti-fascista ou do período revolucionário com maior discrição e brevidade, arranjando sempre forma de desvalorizar as tropelias do passado. Como este monopólio sobre os media, como outros, se está a finar muito por culpa da blogosfera, haverá no futuro mais e melhores oportunidades para discutir estes e outros temas tabu da história portuguesa das décadas de 1960 e 1970.

5 Comments:

Anonymous Cristina Ribeiro disse...

Também não li,ainda,o"Conquistadores de almas"(embora já o tenha encomendado),mas o que li acerca dele permite-me ter a expectativa de ver eliminados alguns dos mitos que se criaram durante o PREC ,e antes do mesmo.Tal como o Fernando,espero que este seja apenas o primeiro...

4:41 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Pois eu fico à espera de saber se é um bom livro de memórias, um bom ensaio político, ou um bom livro de história. Quanto a isso de esquerda ou direita académica não sei o que é, mas sou contra, especialmente se existir realmente. A esquerda e a direita não devem ter lugar na academia. E não vejo o que se ganhe em substituir uma qualquer ortodoxia por outra.

12:34 da manhã  
Blogger Fernando Martins disse...

Bruno,
Uma coisa é aquilo que desejamos, outra aquilo que existe. Além do mais não é por haver divisões entre esquerda e direita que deixa de haver qualidade. Por trás da "esquerda" e/ou da "direita", haverá sempre mais, menos ou nenhuma qualidade.

1:26 da manhã  
Blogger Velha Guarda disse...

Meus caros,
O livro está à venda, neste momento, na Bertrand, na FNAC, em muitas livrarias de bairro e, com algum destaque, já nos hipermercados. Pelo menos no Carrefour...
Apreciarei muito os vossos comentários, quaisquer que sejam.
Saudações democráticas!

8:16 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Fernando, claro que há pessoas de qualidade de esquerda de direita, muçulmanas ou ateias. Mas para mim a qualidade académica pressupõe, não o abdicar-se de convicções sejam elas quais forem, mas certamente colocá-las entre parêntesis quando se trata de fazer investigação ou ensino. Não se pode ensinar só aquilo em que se acredita, diria até, bem pelo contrário. Nem acredito que haja boa investigação sem que à partida e conscientemente se parta com a intenção de desafiar os nossos preconceitos. Em suma, não sou nem pós-moderno, nem relativista. Acho que há limites para a interpretação, e acredito que o rigor metodológico pode levar a conclusões inconvenientes para as crenças pessoais iniciais.

Quanto às memórias do Pinto de Sá, parece-me muito de saudar a sua publicação e vou procurar lê-las. Em Portugal faltam testemunhos, sobretudo que não sejam no registo heróico.
Saudações democráticas!

12:29 da manhã  

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