sexta-feira, maio 05, 2006

Um Olá Português

"Maringá, Maringá
Para havê felicidade,
É preciso que a saudade
Vá batê noutro lugá."

Nasciam os meus pais e os de muitos outros por aldeias de Vila de Rei enquanto Joubert de Carvalho disfrutava dos seus primeiros e retumbantes sucessos musicais, entre os quais Maringá, a canção que deu nome à cidade paranense de que tanto se tem falado por estes dias. Nesses anos não faltavam vilarregenses, cada qual com seu pedaço de terra. Mas os soutos serranos, depois pinhais, nunca tiveram a fertilidade do chão roxo maringaense. Dessa geração de entre-as-guerras saiu gente à busca de vida em Lisboa, na América, depois na França, no Ultramar. Entretanto Maringá era traçada e erguida pela britânica Companhia de Melhoramentos do Norte do Paraná, integrada num processo de colonização estadual em pleno período áureo do ciclo do café, feito de paulistas, mineiros e nordestinos, mas também de japoneses, árabes, italianos, alemães e - ora, pois, pois - portugueses.
O mundo mudou, o país de emigrantes é agora também o país de imigrantes, e neste novo ciclo a autarca de Vila de Rei, Irene Barata, intenta o repovoamento do concelho. O porquê é fractal no quadro do interior português: os cerca de três mil habitantes (não cinco mil, como mal e repetidamente se tem ouvido) que restam estão a envelhecer e a desaparecer a cada ano, é precisa gente. Já o como, o projecto em si, não é claro. Acompanho o caso há meses pel'A Comarca da Sertã, e se, a nível local, é natural que o escrutínio de quem acompanha os acontecimentos oscile entre o muito condescendente (porque há alguém que faz algo para estancar a sangria de pessoas, é melhor não questionar nada) ou muito descontente (porque em micro-guerrilha autárquica tudo o que o opositor faz, faz mal feito, é o apocalipse), é de lamentar que a outra escala, no meio de tanto directo televisivo e artigo de imprensa, ainda não tenha sido aproveitada a oportunidade de investigar um pouco mais os contornos de uma iniciativa aparentemente sem precedentes: como chegou a autarca vilarregense à escolha específica (e exclusiva) de Maringá? Alguém intermediou política e tecnicamente processo? Qual o perfil de trabalhador pedido à entidade recrutadora? Existem outros objectivos de dinamização económica a alcançar com a futura geminação dos municípios?
Seja como seja, está a chegar gente nova a uma terra velha, tristonha, sem a beleza de outros tempos, por isso bem-vinda seja - aqui fica um olá português.

6 Comments:

Blogger Marco disse...

Esperemos que estes brasileiros sejam bem recebidos e tenham sucesso, tal como aconteceu com tantos milhares d eportugueses no Brasil.

10:14 da manhã  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Conto que sim, Marco.
Sendo filha de filhos da terra, e conhecendo bem os seus habitantes, adivinho que primeiro acontecerá a curiosidade, típica de todo o sítio pequeno, depois virá um período de uma certa reserva, característica das populações serranas da Beira Baixa, e, só ao fim de algum tempo, a convivência de portas franqueadas. Arrisco ainda que os primeiros a recebê-los bem serão os que nos últimos anos têm regressado ao concelho, vindos da Suíça, Alemanha e França, após a reforma.

11:46 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Cara Cláudia,

Por curiosidade, conhece o Rui Vicente de Vila de Rei? É que eu sou da Sertã,ele é meu amigo, e reparei agora na coincidência dos vossos apelidos!

Noélia Fernandes

PS: Aproveito para a felicitar pelos seus textos, aqui, mas principalmente em Quatro Caminhos.

9:34 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Olá, Noélia,

com que então uma costela do Pinhal? Se bem que a Sertã é Pinhal de escala um pouco menos microscópica... :)
Ainda estou a apurar se tenho algum primo Rui, que a minha família é bastante grande e podia-me ter escapado de memória, mas tudo indica que não (existem duas outras famílias com esse apelido, no concelho);

E obrigada, continua a passar por cá, felicidades para ti também!

ACV.

5:07 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Cláudia,

Obrigada pela resposta, é sempre giro encontrar alguém que conhece a minha "terra". Também achei piada ao texto do João, no outro dia, sobre Dornes, etc. São tudo sítios que gosto. Eu não tenho blog mas "habito" num site, aproveito para partilhar: www.cativar.com

Um abraço, Noélia Fernandes

10:32 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Noélia ,
sempre que posso, também sou de banhos fluviais, caminhadas e conversas por lá.
Agora vou ali espreitar esse site :)

Abraço,
ACv

11:34 da tarde  

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