terça-feira, fevereiro 28, 2006

Notícias da Dinamarca e outras paragens


Vale a pena dar uma vista de olhos ao registo escrito deste debate na Brookings Institution em Washington a respeito da polémica das caricaturas (apesar do inglês sofrível).

Primeiro dado interessante. Ninguém parece ter reparada que Fleming Rose o editor dinamarquês do Jyllands-Posten, convidado para participar na discussão neste think-tank de centro esquerda, era um perigoso porta-voz de extrema-direita. Devo confessar que eu próprio, a avaliar pelo seu discurso – nomeadamente a preocupação com a integração dos imigrantes muçulmanos, ou as referências ao Partido Popular dinamarquês – tive dificuldade em detectar indícios suspeitos. Talvez esteja a disfarçar.

Revelador que os editores do The Washington Post, do Die Zeit e do Der Spiegel tenham sido mais críticos da decisão de publicar as caricaturas, embora admitindo o interesse do debate gerado depois, do que Ammar Abdulhamid o muçulmano moderado presente. (Ou seja, não fanático, que não quer impor pela força o seu entendimento do Islão a outros muçulmanos e menos ainda aos não-muçulmanos). Este liberal sírio viu nelas um desafio aos muçulmanos para abrirem a sua mente e se deixarem de intolerâncias. Considera evidente que as manifestações violentas foram toleradas e até animadas pelos regimes autoritários do Médio Oriente. Dá exemplos. A publicação das caricaturas há meses num dos principais diários egípcios não provocou qualquer reacção. Em Damasco, o centro cultural dinamarquês que fica no coração da cidade nunca foi visado por qualquer indignação espontânea. Os regimes, segundo Abdulhamid, estão a querer apaziguar os grupos religiosos radicais, e também a usá-los para assustar os defensores da liberalização no Ocidente e no Oriente.
Abdulhamid sublinha ainda que o que está em jogo é também uma luta pelo controlo das comunidades islâmicas na Europa. E que é essencial retirar força e legitimidade aos que querem fazer delas guetos fundamentalistas e assustar o resto da sociedade por forma a tolerar zonas de não-direito no seu seio. Nisto, como em tudo, o essencial é garantir o mais possível a liberdade de escolha de estilos de vida e de crenças. Ele é optimista e considera que a crise levou a que os muçulmanos radicais na Europa ficassem mais isolados.

Uma última informação relevante para quem exibe grande preocupação com questões de coerência satírica. Aparentemente o mesmo caricaturista que desenhou Maomé com uma bomba na cabeça, tinha antes e no mesmo jornal de extrema-direita publicado o desenho de uma bomba com a estrela de David alusiva à ocupação israelita da Palestina, e um Cristo crucificado com notas de dólar a decorar a Paixão. Mau gosto? Mas pelo menos mau gosto anticlerical consistente. Realmente estes jornais de extrema-direita dinamarqueses são um pouco estranhos.

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