sexta-feira, janeiro 27, 2006

Sociologia de um génio


O génio é Mozart e o sociólogo é Norbert Elias, um dos nomes mais importantes da sociologia histórica e autor de O Processo Civilizacional e de A Sociedade da Corte. Mozart Sociologia de um Génio é o título do livro publicado em 1993 pela Asa. Os textos, reunidos após a morte de Elias, destinavam-se a uma obra mais vasta: O Artista Burguês na Sociedade da Corte. É possível contrapô-lo a O Queijo e os Vermes de Ginsburg. Neste exercício de «micro-história» que se tornou um clássico tratava-se de negar a dicotomia entre a «História dos Grandes Homens» e a «História das Massas Anónimas», tomando como objecto de estudo um pobre moleiro italiano perseguido pela inquisição no século XVI. Sendo um «pequeno homem» excluído dos centros culturais e sob vigilância do Poder, Menochio, o moleiro, construíra uma visão original do mundo cozendo tradições orais com a sabedoria bebida em textos impressos trazidos pelos clientes do moinho. O mundo «saído da cabeça» do moleiro começara por ser uma massa láctea ao qual os anjos, agindo como vermes em relação ao queijo, deram consistência.
Norbert Elias escolhe estudar um génio – Amadeus Mozart – descobrindo nele as marcas do seu tempo, sendo que este tempo não é homogéneo. No século XVIII um bom músico tinha condições para ocupar uma posição na casa de um príncipe ao lado de pasteleiros, cozinheiros e camareiros. Enquanto os escritores, publicando em livros e jornais, começavam a ser capazes de viver do mercado constituído pelos novos leitores. As extraordinárias capacidades de Mozart permitiram-lhe libertar-se do patrocínio do bispo de Salzburgo e tentar viver satisfazendo o gosto do público de Viena. Teve sucesso durante algum tempo e depois falhou. É comovente ler um grande sociólogo, ao analisar o estado de espírito de Mozart, no fim da vida, admitir que o compositor tinha consciência de que a sua obra ficaria para a posteridade, mas era o sucesso do seu tempo que buscava. Mozart escrevia música para ser amado e morreu duvidando do amor da mulher, do público e dos amigos. Em vez de teses conspirativas sobre a morte do génio, Elias sugere que Amadeus terá sofrido de uma violenta depressão e desistido de viver. Não morreu considerando-se uma vítima da sociedade, mas que a sua música não fora capaz de criar uma nova sociedade. E era verdade. Ainda é verdade.

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