domingo, outubro 14, 2007

Viajar...fuga ou valorização?

A época de férias mais uma vez apelou a longes terras. E o velho romeiro que existe em nós, ávido de novidade, impele-nos para o desconhecido; e aí vamos nós, por vários e curiosos caminhos, à procura do que nos chama. E chamam-nos as maravilhas da natureza, as grandes sociedades ou os pequenos lugarejos, perdidos aqui e além, pinceladas de épocas diferentes que o tempo se esqueceu de destruir e, sobretudo, chamam-nos os segredos de outros costumes, outras tradições, outras gentes.
Para muitos, viajar significa fugir à monotonia do quotidiano, libertar-se de peias, de jugos, de códigos de moral e de direito. Quebra-se a disciplina habitual e a personalidade reduz-se quase a um primarismo elementar de instintos e de reacções desordenadas. Para quase todos, viajar significa evadir-se de preocupações e de responsabilidades.
Se é certo que deve haver da parte de quem viaja uma adaptação ao modo de viver e de pensar dos naturais da região de que se visita, essa adaptação não significa que se seja, por exemplo, totalmente francês entre os franceses ou cabo-verdeano entre os cabo-verdeanos. Dito de outro modo, se o nosso espírito tiver aquela maleabilidade que não compromete uma certa firmeza de princípios, o contacto com novas terras e novas gentes há-de produzir em nós um salutar choque psicológico. E esse choque faz-nos pensar que são poucos os instrumentos de cultura tão ricos como as viagens que só alargam e aprofundam a cultura na medida em que, em nós, se realiza um processo de amadurecimento das impressões recolhidas.

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