quinta-feira, dezembro 28, 2006

Os poemas da vida de Eduardo Lourenço


Hoje, pela primeira vez na minha vida, recusei comprar «O Público» numa tabacaria onde ele vinha sem um livro de poesia «por mais sete euros». Acho que se justificou. Tenho seguido com pouca atenção as séries dos «Poemas da minha vida», mas o livro em causa era a antologia organizada por Eduardo Lourenço, que ao longo de mais de cinquenta anos tem escrito alguns dos ensaios mais importantes sobre poesia portuguesa. Os «poemas da vida» de Eduardo Lourenço são um roteiro para navegar pela poesia, partindo do cais da literatura portuguesa. Escolhi para aqui publicar um poema de Baudelaire, em parte porque é das escolhas menos previsíveis, de tal modo os gostos de Eduardo Lourenço se têm identificado com o cânone da poesia contemporânea portuguesa, em parte talvez porque ontem à noite revi em DVD o Blue Velvet e os versos de Baudelaire parecem anunciar o cinema de David Lynch.

HINO À BELEZA

Virás do céu profundo ou surges do abismo,
Beleza?! o teu olhar, infernal e divino,
Gera confusamente o crime e o heroísmo,
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs no teu olhar o poente e a aurora;
Expandes os teus odores qual noite de trovoada;
Teus beijos são um filtro e uma ânfora, a boca,
Tornando o herói cobarde e a criança arrojada.

Vens da treva mais negra ou descerás dos astros?
Encantado, o Destino é um cão que te segue;
Semeias ao acaso alegrias, desastres,
E por dominares tudo é que nada te interessa.

Caminhas sobre os mortos, que são o teu gozo;
Das tuas jóias, o Horror é das que mais fascina,
E entre tais enfeites, o próprio Assassínio
Vai dançando feliz no teu ventre orgulhoso.

O insecto, deslumbrado, procura-te a chama,
Arde crepita e diz: Benzamos esta luz!
O apaixonado trémulo, aos pés da sua dama,
Parece um moribundo a afagar o sepulcro.

Mas que venhas do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! monstro ingénuo, assustador, excessivo!
Se o teu olhar, teus pés, teu riso, abrem a porta
De um Infinito que amo e nunca conheci?

De Satanás ou Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Se tu tornas – ó fada de olhos de veludo,
Ritmo, perfume, luz, ó rainha perfeita!-
Mais leve cada instante e menos feio o mundo?

Lourenço, Eduardo, Os Poemas da Minha Vida, Lisboa, Público-Comunicação Social, Lda, 2006, pp. 34-35
Poema traduzido por Fernando Pinto do Amaral

1 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

Poemas bons mesmo são os do Eduardo Lourenço.

5:31 da tarde  

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