domingo, novembro 12, 2006

Não choro por Saddam Hussein. Choro por nós e pelas suas vítimas…

Nunca gostei de me remeter a posições confortáveis em situações que são obviamente difíceis e polémicas. Não perfilho, portanto, unanimismos que são falsos na sua essência. Não quer isto dizer que às vezes não ceda à tentação. Mas esta não será uma dessas situações.
Por isso não choro lágrimas de crocodilo (ou quaisquer outras) pela futura execução de Saddam Hussein, como não me indigno com a farsa que, do ponto de vista formal, foi o seu julgamento. Da mesma forma que não me indignaria, antes rejubilaria, se o mesmo destino e julgamento tivessem tido Mao, Estaline, Hitler, Pinochet e uma procissão de gente sinistra e má que preenche os anais da nossa história ao menos no último século. Nunca me incomodou que Nuremberga tivesse sido tecnicamente uma farsa. Nem nos momentos mais inocentes da minha vida. Neste particular, eu, como as figurinhas acima nomeadas, embora cada um à sua maneira, não passamos do testemunho da bondade e pertinência das teorias evolucionistas. Quem olhe à sua volta, ou se debruce sobre o trabalhinho executado pelos Saddams deste mundo, não pode negar que as nossas raízes, a nossa essência, não podem de facto ser outras senão as de uns primatas que apareceram em África há uns 4 milhões de anos e que, apesar da sua relativa inteligência, sempre se entretiveram a espalhar a dor e o sofrimento entre os da mesma espécie.
Como não me sinto superior a nada nem a ninguém, não peço aquilo que nós, apenas macacos bastante menos peludos e muito mais inteligentes, de facto não somos nem nunca seremos capazes de dar a quem quer que seja. Sobretudo quando esse alguém não conseguiu matar ou, ao menos, adormecer a besta que habitava em si. E daí a pergunta: porquê perdoar quando tudo nos ensina que não há redenção possível? Que ninguém pense que por não se condenar Saddam Hussein à morte a “civilização” – que não duvido que exista – avança. Necessitamos exactamente do contrário. Se se executar Saddam estaremos a reconhecer perante nós mesmos aquilo que somos e as barbaridades que airosamente cometemos e cometeremos vezes sem fim. Ou será que é porque condenamos a execução de Saddam hoje, aqui, que garantimos a impossibilidade de andarmos no futuro atrás do nosso semelhante para lhe infligir sofrimento pela mais absurda das razões. Não aprendemos nada com o que se passou na Bósnia ou no Rwanda há uma dezena de anos? Não percebemos que aquela violência aparentemente absurda, mas tão nossa, se poderá repetir, se está a repetir, se irá repetir, lá como em qualquer outra parte do mundo. Não sejamos hipócritas, reconheçamos aquilo que somos e que cada um de nós será um dia capaz de matar com as suas próprias mãos pela mais mesquinha das razões. A maior das mentiras do nosso tempo é continuarmos a fingir que acreditamos ser a história um processo linear e o progresso uma realidade inequívoca inventada mas não provada pelo racionalismo moderno e, acima de tudo, pelos factos. Se assim fosse o século XX teria ocorrido há, pelo menos, dois milhões de anos. Infelizmente foi ontem. E se se repetir, e vai repetir-se, vejamos em que circunstâncias chegaremos ao século XXII. Se chegarmos.
Nota: Se alguém quiser ler em inglês um texto pertinente sobre a bondade do julgamento e da pena que calhou a Saddam Hussein, faça o favor de se dirigir aqui.

3 Comments:

Blogger Diogo Vaz Pinto disse...

Este teu post é triste, em certos aspectos é realista, no geral é monótono, desinteressante, um bocado inoportuno na relação que estabelece com a situação (caso) que destacas... No fundo fico sem perceber se cais ou não num momento de revelação na tua identidade psicológica ao assumires uma perspectiva de abraço colectivo à volta de uma série de momentos de desgraça em que a nossa história deixou as mãos de cada homem um pouco sujas, seja pela acção ou inércia... Mas tu não queres falar moralmente, nem escolher uma ideia melhor, nem fingir que acreditas em inverdades então até escreves como se fosses dizer alguma coisa mas no final é apenas um grande bocejo.

11:36 da manhã  
Blogger MP-S disse...

"Se se executar Saddam estaremos a reconhecer perante nós mesmos aquilo que somos e as barbaridades que airosamente cometemos e cometeremos vezes sem fim."

Resumindo: a apologia da pena de morte como um sacrificio ritual exorcista. Lamentavel.

Risivel, se nao fosse tragico.

Porque nao arrancar-lhe o coracao durante a execucao? Sempre acrescentava alguma coisa de pitoresco e faziamos uma incursao 'as catacumbas do inconsciente colectivo da humanidade.

11:38 da manhã  
Blogger Fernando Martins disse...

Dois comentários que, sinceramente, agradeço. Ajudam-me a tentar pensar e escrever melhor.

11:48 da manhã  

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