terça-feira, julho 11, 2006

A Parede


Faz por estes dias um cento de anos que Robert Baden-Powell, soldado chegado a general, reconhecido e aclamado em Inglaterra desde a vitoriosa resistência ao cerco a Mafeking, se hospedou na casa de campo do notório e um tanto infame magnate da imprensa, Arthur Pearson, no Surrey. O milionário, considerado entre a alta aristocracia e a gentry não mais que um buscão, um fura-vidas, desenvolvia no recato dos seus tempos livres actividades filantrópicas insuspeitadas. Foi este o primeiro homem que Baden-Powell escolheu para conversar sobre o seu plano de adaptar o já editado manual de actividades de exploração do território, Aids to Scouting (1899), a um público infanto-juvenil, o primeiro passo no desencadear do escutismo, um método de aprendizagem e diversão que não é mais nem menos que um jogo de crescimento, da chegada com alegria e carácter à idade adulta.
Procuramos sempre o que nos é familiar, quando entramos num local de culto. Ao visitar a St. Paul's Cathedral não me ocorreu de lá sair sem achar o memorial do homem a quem dediquei bom tempo de vida e estudo. Com a ajuda de dois funcionários da cripta, demos com não mais que uma parede por trás da qual se encontra a homenagem ao homem que largou o exército, e com ele um expectável curso de prestígio e tradição, para dirigir o que se tornou o maior movimento de crianças e jovens alguma vez criado, ao homem que jaz em campa rasa em Nyeri, nessa África menos famosa que a de Dennis Finch Hatton ou de Karen Blixen, mas a mesma, e cujo legado se encontra hoje igualmente escondido sob o estereótipo do jovem incauto que arrasta a velhinha pela passadeira. We're terribly sorry, ms., we're refurbishing, you see? I do see.
Daqui a um ano, por data do acampamento-teste do método de Baden-Powell na ilha de Brownsea, em Dorset, iniciar-se-ão comemorações do centário da criação do escutismo. Não interessa que as fardas, o código de cavalaria e a bondade numa acção estejam fora de moda. Interessa que o escutismo continue a funcionar pelo mundo como escola de auto-suficiência, liberdade e paz. E continua.

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