segunda-feira, julho 10, 2006

Diário Ateísta (ou mais exactamente) Diário Anti-Católico

O Diário Ateísta devia ter a coragem de afirma as suas verdadeiras convicções. Devia mudar de nome e passar a chamar-se Diário Anti-Católico ou, talvez, Diário Anti-ICAR Etc. O ateísmo é só um pretexto para estes fanáticos. O que realmente os move é uma hostilidade doentia e cega a toda forma de religião, mas sobretudo ao Catolicismo. Em suma, estão a dar má fama ao ateísmo.

Alguma vez viram alguma discussão sério sobre as bases filosóficos, ou até, Deus meu, científicas do Ateísmo? Só se for quando o Rei fez anos. Ataques bacocos ao Catolicismo é dia sim, dia sim. Num século em que dezenas de milhões foram mortos por ideologias estatistas, anti-clericais, anti-religiosas, anti-católicas e ateias, isso é assunto que não lhes interessa discutir. E quando o fazem é para recordar que o ateísmo não é uma religião, não é uma igreja (para quem não tivesse percebido), e portanto, não pode ser atribuída a essa descrença militante nada feita no combate às crenças religiosas no passado e ainda hoje em países como a China, o Vietname, Cuba, a Coreia do Norte. Santa lógica, realmente!

É ilustrador do grau cómico de manipulação da história a que esta gente está disposta a ir que se proponham falar da cumplicidade do Catolicismo com o Holocausto, a propósito das relações – por sinal frequentemente tempestuosas – do Vaticano com Mussolini, numa altura em que não havia qualquer perseguição dos judeus em Itália (até os havia membros do Partido Fascista), e em que nem havia perseguição aos judeus sequer na Alemanha, pela simples razão de que os nazis não tinham tomado o poder nesse país! Isto, claro, além de ocultarem que o Vaticano se opôs tenazmente, quer às leis raciais italianas de 1938, quer à aliança de Mussolini com Hitler.

Há muito coisa que se pode debater nas relações entre o catolicismo e o judaísmo. E há alguma coisa que se pode discutir sobre o que o Vaticano podia e devia fazer durante a Segunda Guerra. Que havia anti-semitismo católico e cristã é algo que não merece dúvida. Que só a sua secularização e "cientifização" por determinadas correntes de Darwinismo social lhe deu uma lógica de extermínio industrial do nazismo é não menos evidente. Ou o facto de que Pio XI e Pio XII condenaram claramente o racismo nazi (e não só); e tiveram desde o início uma postura de grande reserva e cada vez mais aberta hostilidade face a Hitler e ao seu regime. Os Católicos e o Vaticano fizeram mais do que qualquer outra organização não judaica para salvar judeus e outras vítimas da perseguição nazi, como foi repetidamente reconhecido na alturas e nas décadas logo a seguir à Segunda Guerra Mundial por personalidades judaicas tão variadas como Einstein, Chaim Weizmann ou Golda Meir. Argumentar que estas figuras estavam todas enganados quanto ao fundamental, ou desejosas de cair nas boas graças do Vaticano, numa questão tão delicada, é simplesmente ridículo. Este ano, indignado com a manipulação histórica gritante e o tráfico das vítimas do Holocausto para efeitos de ataques à Igreja católico, o rabi e historiador David Dalin publicou The Myth of Hitler’s Pope. É uma obra de divulgação, mas que, para variar, cita abundamentemente as fontes da época e alguns historiadores de referência, ao contrário de uma chusma de obras com os seus olhos em vender no rico mercado do anti-catolicismo militante, e que se concentram em imaginar aquilo que o Vaticano deveria fazer. Mas não creio que daqui venha grande diferença. O fanatismo anti-católico é, como qualquer fanatismo, pela sua natureza, impermeável à crítica.

8 Comments:

Blogger Luís Aguiar Santos disse...

É que o ateísmo é uma religião... E, na sua versão militante, tão pouco dada como as outras a pontes com a prudência intelectual e a racionalidade.

10:55 da manhã  
Blogger pepe disse...

Luis
Não creio que se possa colocar o ateísmo como uma religião pela razão óbvia da palavra negar a existência do divino. Na sua vertente mais elaborada, o ateísmo é uma filosofia, na vertente mais pragmática é uma atitude.

O que o Bruno Reis critica, a meu ver, é a postura "anti-" do Diário Ateísta. Realmente, existe uma postura ideológica no referido blog e exprime-se dum modo geralmente ofensivo e basico, para não dizer mais.

Pela minha parte, entendo que é de leitura aborrecida, porque previsível, sem trazer matéria que desperte uma polémica rica e saudável. E, contudo, como existem interessantes polémicas nesta área!

Mas repare que não é da essência do ateísmo ser "anti-". Simplesmente exprime uma negação ontológica, desculpe o palavrão: a inexistência do Divino.

11:16 da manhã  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Como o Bruno sabe, eu tenho um conceito bastante abrangente de "religião" ou "religioso", nele cabendo qualquer sistema de crença, com ou sem "divino". O "divino" é uma noção teológica que dificilmente se encontra na cabeça das pessoas enquanto crêem; elas poderão ter, quando muito, uma noção vaga do "sagrado". Dito isto, entendo que todos os seres humanos são seres religiosos; as crenças, o seu objecto e explicitação é que variam muitíssimo porque somos uma espécie particularmente diferenciada dentro da sua própria natureza.

11:39 da manhã  
Blogger CAA disse...

Talvez fosse conveniente que o autor da posta se informasse um pouco mais sobre o assunto antes de escrever.

9:10 da tarde  
Blogger Pedro Morgado disse...

Alguma vez viram alguma discussão sério sobre as bases filosóficos, ou até, Deus meu, científicas do Ateísmo?
Então o teu deus já te respondeu ou continuas à espera?

1:04 da manhã  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Acontece, caro CAA, que o autor da posta é um historiador destas matérias e já assinou algumas recensões de obras sobre assunto. É também modesto q.b. para o dizer.

10:39 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Pepe concordo consigo quanto ao ateísmo, e a discussão com o Luís é uma das nossas (várias) interessantes e recorrentes "controvérsias".
Como diz o ateísmo está longe de ser resumir ao Diário Ateísto, foi precisamente para isso que tentei alertar.

Caro CAA todos devemos ir estudando mais os temas sobre os quais falamos. Eu tenciono fazê-lo, mesmo sendo este um dos temas que me tem ocupado desde há alguns anos. Mas sobretudo devemos tentar perceber o passado em termos do contexto da época, e não dos nossos preconceitos presentes.

Caro Pedro Morgado, só os fanáticos não tem nada a debater com quem tem opiniões diferentes.

4:20 da tarde  
Blogger fjg disse...

"O fim de uma longa farsa

Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 1o de fevereiro de 2007



O ex-chefe da espionagem romena, Ion Mihai Pacepa, confessou recentemente que a onda de acusações ao Papa Pio XII, que começou com a peça de Rolf Hochhuth, O Vigário (1963), e culminou no livro de John Cornwell, O Papa de Hitler (1999), foi de cabo a rabo uma criação da KGB. A operação foi desencadeada em 1960 por ordem pessoal de Nikita Kruschev. Pacepa foi um de seus participantes diretos. Entre 1960 e 1962 ele enviou a Moscou centenas de documentos sobre Pio XII. Na forma original, os papéis nada continham que pudesse incriminar o Papa. Maquiados pela KGB, fizeram dele um virtual colaborador de Hitler e cúmplice ao menos passivo do Holocausto (leiam a história inteira aqui).

Foi nesses documentos forjados que Hochhuth se baseou para escrever sua peça, a qual acabou por se tornar o maior succès de scandale da história do teatro mundial. O dramaturgo talvez fosse apenas um idiota útil, mas Erwin Piscator, diretor do espetáculo e aliás prefaciador da edição brasileira (Grijalbo, 1965), era um comunista histórico com excelentes relações no Kremlin e na KGB. Muito provavelmente sabia da falsificação.

Costa-Gavras, o diretor que em 2001 lançou a versão cinematográfica da peça, decerto cabe com Hochhuth na categoria dos idiotas úteis. Mas o mesmo não se pode dizer de John Cornwell, que mentiu um bocado a respeito das fontes da sua reportagem, dizendo que havia feito extensas investigações na Biblioteca do Vaticano, quando as fichas da instituição não registravam senão umas poucas e breves visitas dele. Cornwell é vigarista consciente. O conteúdo da sua denúncia já estava desmoralizado desde 2005, graças ao estudo do rabino David G. Dalin, The Myth of Hitler’s Pope, publicado pela Regnery, do qual o público brasileiro praticamente nada sabe até agora, pois o livro não foi traduzido nem mencionado na grande mídia. Com a revelação das fontes, nada sobra de confiável na lenda do “Papa de Hitler”, que, no Brasil, graças à omissão da mídia e das casas editoras, tem campo livre para continuar sendo alardeada como verdade pura. Da Grijalbo nada se pode esperar. É tradicionalmente pró-comunista e nem sei se ainda existe. Mas a Imago, editora de O Papa de Hitler, parece ser honesta o bastante para reconhecer sua obrigação moral de publicar o livro do rabino Dalin. Noto, de passagem, que eu mesmo, quando li a denúncia de Cornwell, acreditei em tudo e cheguei a citá-la em artigo. Que Deus me perdoe."
http://www.olavodecarvalho.org/semana/070201jb.html

11:44 da manhã  

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