segunda-feira, maio 29, 2006

Discutindo os clássicos


Acerca da conversa sobre os clássicos na casa Fernando Pessoa, li o relato de Rui Tavares e os comentários certeiros de Eduardo Pitta e Filipe Alves Moreira. Pelo que percebi, o debate não pôs em causa a organização do estudo dos clássicos pelo critério das literaturas nacionais.
A concepção prevalecente em Portugal é marcadamente nacionalista. Os «nossos» clássicos são incluídos nos programas de Português e Literatura. Os «outros» ficam sob a alçada das línguas e literaturas estrangeiras. Acontece que, por exemplo, dois anos de alemão no 10.º e 11.º anos são insuficientes para chegar a qualquer clássico desta língua. No Inglês o aluno avançado e aplicado do secundário fará as suas «fichas« de obras fininhas como The Pearl de John Steinbeck, The Old Man and the Sea de Hemingway, Animal Farm de George Orwell ou The Great Gatsby de Scott Fitzgerald. Além da magreza da lomba, note-se, todos estes livros são do século XX – e não creio que a escolha seja totalmente alheia à produção didáctica dos países de língua inglesa.
Será que a arrumação dos «clássicos» por línguas nacionais não nega a própria concepção de «clássico» que pressupõe a existência de um património universal? Será justo reservar o estudo de Dostoievski para os aprendizes de russo? De Cervantes para os estudiosos do espanhol? De Dante para os avançados no italiano? De Ibsen para os entusiastas do norueguês?
Uma das razões para estudar os clássicos é criar os alicerces dos escritores e leitores do presente e futuro. Nesta perspectiva não será mais estimulante para um candidato a dramaturgo estudar Ibsen, Tchekov, Brecht, Beckett, do que o Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett?
A distorção nacionalista no estudo de História da Literatura gera dificuldades e resistências na compreensão da literatura portuguesa. Como entender Júlio Dinis desconhecendo a tradição inglesa do romance burguês? Como situar Eurico o Presbítero de Alexandre Herculano ignorando Walter Scott? E, já agora, coloco a questão a Maria Filomena Mónica e seus discípulos: será que os romances de Júlio Dinis e Eurico o Presbítero se encontram a salvo de qualquer controvérsia sobre o seu valor literário em contraste com todas as obras do século XX?

PS A insinuação?sugestão? feita por Filomena Mónica de fuzilar os responsáveis pelos currículos de literatura não foi feliz. Fez-me lembrar as declarações de Otelo – não o de Shakespeare, mas o que ponderava se não valeria a pena meter todos os reaccionários no Campo Pequeno…

4 Comments:

Anonymous Maria Filomena Parkinsónica disse...

Vc não percebe nada porque nunca esteve em Oxford, como eu.

7:08 da tarde  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Percebo o que defendes quanto à noção de clássico, mas não percas de vista que os "nacionais" são estudados no contexto de uma disciplina de língua portuguesa. Pelo que tem sentido estudar-se apenas os clássicos que escreveram originalmente nessa língua. O que dizes seria, porém, perfeitamente válido para uma disciplina que fosse simplesmente dedicada à Literatura e não à língua mãe dos alunos.

9:12 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Sim, há sistemas de ensino com cadeiras de «Literatura «universal». Ou podia juntar-se numa mesma cadeira o estudo de clássicos literários e de História ou Filosofia. Não pretendo menosprezar o estudos dos clássicos portugueses. Não só daqueles que já obtiveram reconhecimento internacional - Camões e Fernando Pessoa, mas também dos grandes autores menos reconhecidos no estrangeiro mas que os portugueses não podem deixar de valorizar: Fernão Lopes, Gil Vicente, António Vieira, Fernão Mendes Pinto, Eça, Camilo, Cesário Verde, etc.
Não percebo a obsessão de Filomena Mónica com o século XIX. A nossa poesia, por exemplo, inicia um grande ciclo com Cesário Verde.
O estudo dos clássicos tem a ver com uma concepção acerca da humanidade, não com uma concepção acerca da pátria.

10:37 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

O estudo dos clássicos implica uma concepção acerca da experiência humana e do cânone artístico, não se reduz a uma concepção de pátria ou de modelo linguístico. Embora a tradição romântica seja identificar uma e outra. Nestes tempos de globalização o estudo dos clássicos tem de permitir relacionar as grandes tradições e o património comum das diversas literaturas.

10:49 da tarde  

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