segunda-feira, março 27, 2006

Re: O que eu vi na Tanzânia

Um dos problemas de África é que os Europeus continuam a olhá-la essencialmente como uma questão "turística". Ora, os Europeus que estiveram em África, quer dizer, que lá viveram, têm uma visão diferente, que não se pode contentar em apontar a percentagem de literacia e a segurança pessoal que sentiram em duas semanas de turismo lá passadas como "prova" do que quer que seja. Não passa pela cabeça de ninguém, hoje, propor o regresso ao colonialismo. A questão que se estava a debater era apenas fazer um balanço das ideias dos descolonizadores portugueses, sobretudo os ideológicos que inspiraram e justificaram o abandono das províncias ultramarinas. O que eu continuo a pensar é que nós temos grandes responsabilidades na miséria actual das nossas antigas colónias africanas, mais pela forma como descolonizámos do que pela forma como elas estavam "colonizadas" em 1974. E suspeito que a incapacidade de falar disto frontalmente resulta da orgulhosa recusa de uma geração inteira de admitir a sua ligeireza em relação à "questão ultramarina" nos anos 70.

5 Comments:

Anonymous O Indignado disse...

Mais do que uma orgulhosa recusa, uma incapacidade nacional de olhar de frente para o passado. Assumir a importância de uma visão desapaixonada da história. Talvez uma nova geração de historiadores o possa fazer e, dessa forma, libertar-nos das amarras da memória escondida.

4:06 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Caro Luís,
Ando com falta de tempo para escrever no blogue mas quero dizer duas ou três coisas.
1. Acho muito bem que se discuta a descolonização. Aliás,uma das minhas críticas ao Estado Novo é que proibisse a essa discussão antes da descolonização ser feita.
2. Um relato de viagem de duas ou três semanas em forma de post não é uma tese de doutoramento. Vale o que vale. Se algum dia escrever um livro sobre África (não necessariamente de História) encararei o relato como um ponto de partida para investigar, confirmando ou refutando. Não como um ponto de vista que tenho de «provar». Simplesmente, reflecti sobre uma experiência no contexto de uma discussão.
3. Eu não concordo é com essa tese de que se pode separar a história da descolonização da história da colonização. Como se a colonização tivesse sido feita em democracia, permitindo uma discussão pública acerca da questão e uma negociação política com os movimentos de libertação o resultado fosse o mesmo. Ou como se houvesse quadros africanos preparados para manter em funcionamento a administração pública, a vida económica, etc, o resultado fosse o mesmo.
4. O adjectivo «ligeireza» foi aplicado de forma muito ligeira a pessoas que foram torturadas por passarem informação sobre um assunto que era tabu para o regime. E o advérbio «orgulhosamente» foi empregado pelo próprio Salazar para justificar a sua política.

7:57 da tarde  
Blogger jpt disse...

é interessante a discussão, até por ser interna (e até "violenta"). e também por não ser absolutamente linear. não quero entrar na polémica que é daqui, mas francamente, não posso deixar de sorrir à ideia abaixo expressa, de que a colonização em áfrica tinha como objectivo a "libertação dos africanos". caramba, já passaram uns anitos sobre o momento.e a argumentação. entorta tudo o que se lhe põe em cima, não acham?

(já agora a tanzânia tem uma enorme miséria urbana, terrível. mas tem também a tal estabilidade e uma bem cuidada indústria turística, como dividendos para o país. as contradições do mundo)

8:00 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Não tenciono gastar muito mais tempo e caracteres com o assunto. Só acrescentar uma coisa em relação aos «europeus que lá viveram e têm uma visão diferente». A minha viagem foi feita com um amigo meu que passou a infância em Moçambique e saiu no período da descolonização. Era muito crítico em relação à Tanzânia e por vezes tinha uma relação conflituosa com os africanos. Acontece é que a sua crítica cáustica também se aplicava a Portugal. Admiro-lhe a coerência: emigrou para a Austrália onde fez uma segunda formação e agora vive no Reino Unido.

8:26 da tarde  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Caro João, também é um tanto ou quanto "ligeiro" aplicarmos um género de argumento de autoridade a favor das ideias de determinadas pessoas. Tal como os responsáveis do regime não tinham razão só por terem o poder, também os seus opositores não tinham razão só por se lhes oporem. Continuo a ver alguma dificuldade de debater a questão em si mesma.

Ninguém nega que muitos erros haviam sido cometidos na colonização portuguesa ou que os governantes do Estado Novo não tinham nalguns deles grandes responsabilidades. A questão era que, perante esse facto, quem os combatia tinha a responsabilidade de apresentar melhores soluções. E constato que não apresentaram.

10:28 da manhã  

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