sábado, março 25, 2006

O que eu vi na Tanzânia


A leitura deste post do Fernando Martins permite perceber o seu desconcerto pela minha viagem à Tanzânia. O Fernando, na sua adolescência, fez-se uma viagem de inter-rail pela Europa porque considerava a França «um farol». E ficou desiludido com a higiene dos franceses. A má experiência olfactiva tolheu-lhe um futuro de viajante que podia ser promissor. Aconteceu-lhe pensar que só uma motivação muito forte levaria qualquer pessoa a afastar-se dos suaves perfumes da pátria. Qualquer coisa como a crença noutro «farol», um apelo místico ou a esperança de encontrar «bons selvagens». Lamento desiludi-lo. Provavelmente não teria visitado a Tanzânia se um amigo que não via há muito tempo – precisamente aquele com quem fiz o inter-rail no final do 12.º - não me tivesse desafiado. É raro recebermos convites do género «É pá, embora ir à Tanzânia e subir o Quilimanjaro». O momento não era o melhor, mas achei que não devia deixar escapar a oportunidade.
Sobre diversos aspectos da viagem já escrevi aqui. Limito-me a responder à acusação de não ter querido ver ou não me terem deixado ver miséria na Tanzânia. O país surpreendeu-me pela positiva. Apesar da pobreza, como é óbvio. Não estava à espera de encontrar um país rico. Porém, tinha dúvidas acerca da segurança. Em nenhum momento me senti fisicamente ameaçado. O facto de nunca ter havido uma guerra civil na Tanzânia reforçou a minha percepção de uma sociedade gozando de paz social. Este facto não é nenhuma banalidade. Nem a consequência de um território beneficiado por uma homogeneidade étnica, religiosa ou social. Situada entre o Norte de Moçambique e o Quénia, com costa no Oceano Índico, a população tanzaniana é composta de tribos africanas, indianos e pessoas oriundas do Médio Oriente. O islamismo, que noutras partes do mundo tem sido contaminado pela violência, aqui convive pacificamente com o cristianismo, o hinduísmo e o animismo. Há tribos completamente integradas na sociedade, como os Chagga, e outras que vivem de acordo com as suas tradições, como os Masai. Neyerere impôs como regra que todos os professores do ensino pré-universitário ensinassem fora do local onde tinham nascido. Foi uma medida autoritária, que criou dificuldades económicas a professores que, ganhando pouco, deixavam de poder contar com o apoio da família. Mas foi um dos actos da política de combate ao tribalismo. A administração pública tanzaniana não se encontra monopolizada por uma etnia. É uma pedra angular na construção de um Estado moderna.
Há bons transportes no país. Fomos de autocarro de Dar Es Salaam para Moshi. A principal diferença com uma viagem do mesmo género entre Lisboa e Paris, além da distância e da paisagem, encontra-se nas paragens. O autocarro é rapidamente cercado por grupos que tentam vender frutos tropicais, biscoitos e água aos passageiros, através das janelas. Apanhámos um avião do aeroporto internacional do Quilimanjaro para Zanzibar, da companhia aérea da Tanzânia. Não é decisão a tomar de ânimo leve. Da Rússia, país às portas da Europa, chegam-nos notícias preocupantes de acidentes aéreos. Foi uma viagem agradável. O avião atrasou-se. Como prémio de consolação, os passageiros tiveram direito a uma bebida não alcoólica. A TAP também se atrasa frequentemente e não costuma oferecer nada em compensação. O percurso de Zanzibar para Dar Es Salaam foi num ferry-boat. Viagem terrível, em que poucos permaneceram imunes ao enjoo. O problema não esteve no ferry, bastante moderno, e sim no mar.
Os parques naturais que visitámos mostraram capacidade de organização. Quem quiser subir o Quilimanjaro é obrigado a recorrer a uma companhia e a levar uma equipa com guia, cozinheiro e carregadores. Cada carregador tem um peso máximo de carga para levar Assim se dá emprego a mais pessoas e se evitam acidentes pessoais. Nas portas de cada rota de subida à montanha mais alta de África há balanças que pesam as cargas. Existe uma rede de vigilância e de segurança que evita um elevado número de acidentes numa montanha onde centenas de turistas acorrem todos os anos para tentar subir ao topo. Apesar dos problemas de caça ilegal, os outros parques naturais encontram-se preservados e são o palco de muitos documentários da National Geographic e de fotógrafos especializados na vida natural.
Em Dar Es Salaam, Moshi e Arusha, deparámos frequentemente com grupos de criancinhas e adolescentes fardados. Eu não gosto de ver fardas. No entanto, alivia pensar que são fardas escolares e não militares, como em tantos países africanos nos quais se verifica o recrutamento de crianças para a guerra. Eu consultei o site lincado pelo Fernando. Há indicadores terríveis no que respeita à saúde pública. Teria que compará-los com os dos países vizinhos para apreender o seu real significado. Mas os indicadores de literacia não me parecem tão maus como isso: 78, 2 por cento para o total da população, com 85,9 por cento para a população masculina e 70, 7 para a população feminina.
Resta a distinção entre pobreza e miséria. Como qualquer cidadão europeu, tenho a memória cheia de imagens terríveis de África: crianças deformadas pela fome, cheias de moscas e de barriga inchada. Não vi nada disso. Podem argumentar que eu fiz uma viagem pelos sítios mais turísticos da Tanzânia. O país é imenso e admito que nalgumas regiões possa haver fome. Sublinho, no entanto, que eu percorri milhares e milhares de quilómetros. Se a zona turística é tão extensa, o mérito também é do Governo. A irritação que nos causa a ideia do «pobrezinho mas honrado» não invalida a diferença entre pobreza económica e pobreza moral. Ouvi relatos de turistas assediados por crianças pedintes em Marrocos ou pessoas que oferecem comida a um miúdo da República Dominicana e assistem, com horror, a um assalto por outros miúdos literalmente esganando-se por um lanche ou um pequeno-almoço. Não testemunhei casos semelhantes na Tanzânia. O que há é muitos pequenos negócios em torno do turismo. Um tipo que me tentava vender uma bugiganga argumentava: «Não é bom dares-me só dinheiro, em troca de nada. Mas eu preciso. Por isso, compra-me a pulseira». É uma atitude muito diferente de um desgraçado que me persegue no Lumiar contando-me uma história horrível de cada vez que me tenta sacar uns euros. Assim fiquei a saber, entre outras coisas, que a mulher morreu com sida, a mãe partiu uma perna e os filhos levam porrada na Casa Pia.
Eu não duvido que o rendimento médio de um Masai, por exemplo, seja baixíssimo. Os recursos são escassos, obtidos através da pastorícia ou da negociação de fotografias com os turistas. Um fotógrafo profissional que conheci contou-me a história de um Masai que, reconhecendo-se num poster turístico, foi à sede da companhia pedir dinheiro pela utilização da sua imagem. Falta de dinheiro não significa falta de brio. Vestem trajes e adornos tradicionais fabricados pelo clã ou comprados a baixo custo. Vivem em cabanas com tijolos de lama e colmo. O pouco que têm garante-lhe alimentação, habitação, uma vida social organizada. Mais importante, sentem-se a salvo da guerra. Muitos iraquianos e afegãos, vivendo num regime escudado pelos Estados Unidos, não podem afirmar o mesmo.

6 Comments:

Anonymous C.A.R.. disse...

Belíssimo relato de viagem,que dá vontade de "também querer ir..."

10:16 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Ficaste bem na fotografia!

10:53 da manhã  
Anonymous patrick blese disse...

também cheguei agora da tanzânia e apreciei ler este post que no essencial subscrevo.
No entanto, percebi que os militares são tipos complexos e que as questões de segurança não são tão pacificas como refere.
abraço,

11:29 da manhã  
Blogger João Miguel Almeida disse...

A minha percepção da segurança teve a ver com as minhas expectativas e a percepção do que se passava em países vizinhos, como a Somália ou mesmo o Quénia.
Abraço,

7:33 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Neste post noto, ao menos, duas coisas. O comentariozinho da ordem anti-americano e, consequentemente, pró-Saddam e pró-Taliban. O fascínio pelas pseudo políticas educativas da Tanzânia que não só não tiram os tanzanianos da miséria – mas a culpa deve ser dos americanos – como não permitem em circunstância alguma que os professores ensinem onde bem lhes dê na gana. Mas vendo bem, em Portugal também é assim. Um licenciado em História pertencendo à tribo alentejana dificilmente poderá dar aulas aos seus na província de onde é natural.
É pena que não digas nada sobre os motivos que levam um país com quase 50 anos de independência, e precocemente livre do jugo colonial, não só a estar entre os mais pobres do mundo como a estar relativamente muito mais pobre do que no ano da sua independência. Mas claro, não perderam a dignidade, ao contrário dos portugueses. Portugueses que, por acaso, nos tempos do doutor Salazar eram muito mais pobres do que actualmente, mas também muito mais dignos. Onde é que se via um cidadão decente, em pleno Lumiar, ser assediado por um gajo com filhos espancados na Casa Pia e a mulher morta por causa da SIDA. Sim, porque desde quando é que essas porcarias da droga e da SIDA existiam no Portugal do doutor Salazar?

10:54 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

É um exercício penoso responder ao arrazoado de Fernando Martins, mas vou tentar fazê-lo em nome da fé a outrance nas virtudes do diálogo:
a) O facto de ser crítico da política de Bush no Médio Oriente não significa que seja pró-Saddam Husseim e pró-taliban. O mesmo se aplica a Vasco Pulido Valente e a uma parte substancial da opinião pública norte-americana;
b) Não manifestei fascínio pela política educativa da Tanzânia. Citei essa política educativa como um dos meios de combate ao tribalismo. É de facto uma aquisição importante que a administração pública não seja monopolizada por uma etnia.
c)Relatei algumas experiências de relação inter-pessoal com pobres. Distingo de facto entre pobreza económica e pobreza moral. Têm-me feito relatos da força dessa distinção em Timor-Leste. Não vejo que fosse esse o caso do Portugal do dr. Salazar.
d) Mais uma vez: o relato de viagem foi apenas uma achega para um debate que pensava que se ia alargar. Como falaria de um artigo ou livro que tivesse lido ou um filme que tivesse visto, sabendo que eram apenas visões parciais. Em vez de um alargamento, verifica-se um afunilamento do debate.

10:01 da manhã  

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