segunda-feira, março 06, 2006

Contradições do politicamente correcto


A atribuição do Óscar de melhor realização a Ang Lee, tendo a estatueta de melhor filme do ano sido dada a Crash, tem um ambíguo sabor a politicamente correcto. Ang Lee merecia o Óscar. Mas já o tinha merecido por O Tigre e o Dragão. E a realização é um ponto forte do «melhor filme do ano». O politicamente correcto de Hollywood mostra as suas contradições: os gays valem mais do que os asiáticos, as cobóiadas, mesmo com cenas «licenciosas», são preferíveis a filmes de kung-fu.
É uma visão do mundo com longas raízes. Hollywood já tinha estrelas gay quando, nos anos 60, Bruce Lee foi recusado como actor da série «kung-fu» por ser «demasiado asiático». Em vez do génio das artes marciais, foi escolhido David Carradine, com formação de bailarino.
Curioso: no discurso de agradecimento, Ang Lee dedicou o Óscar a muitos asiáticos: ao pai, à família, à gente de Taiwan e da China, etc…e não a uma minoria sexual. Como diria o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, é preciso topete!

3 Comments:

Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Mas olha que não há nada de politicamente correcto em atribuir um Óscar a um filme que fala de violência, estupidez e racismo sem peias e finais felizes, João.

7:30 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Ana, o politicamente correcto tornou-se uma faca de dois gumes, pois é politicamente correcto dizer mal do politicamente correcto. Neste caso tanto o filme do Ang Lee como o Crash falam de «violência, estupidez e racismo sem peias e finais felizes». Ambos são bons filmes. Prefiro o «Crash», que tem uma narrativa mais elaborada. É trágico sem ser fatalista, pois algumas personagens mudam radicalmente. Duro na visão da América e contudo com momentos hilariantes. Uma visão coral e panorâmica de um mundo radicalmente plural que é cada vez mais o nosso mundo.

10:54 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

João, também eu gostei mais do "Crash", mas ao contrário de outros anos, não me parece que essa tenha sido uma escolha politicamente correcta por parte da Academia, acho que "Brokeback Mountain", sendo também um filme "com uma causa", é muito menos perturbador e interpelativo que o "Crash", era só isso que queria salientar :)

12:47 da manhã  

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