sexta-feira, maio 16, 2008

Blade Runner - Perigo Eminente

A reposição nas salas da sétima versão de Blade Runner tem, a par da emoção de rever um clássico, um efeito inquietante: onde está o «verdadeiro» filme e onde está a réplica? É como se o tema deste filme de ficção científica – a dificuldade em distinguir entre seres humanos e «replicantes» - tivesse contaminado a película, a nossa ideia da obra, a nossa memória da história. Não gostei desta versão. Como não tenho uma colecção de DVDs com as versões anteriores estou impedido de fazer críticas seguras e rigorosas. Admito que a voz «off» debitasse informação irrelevante, mas acho que não devia ter sido totalmente eliminada, pois para mim é indissociável do filme, como a voz off de Apocalypse Now de Coppola ou de Europa de Lars von Triers. O filme de que me lembro começava com um mergulho no caos das ruas de Los Angeles em 2019 e rapidamente se transformava uma caçada de morte do «blade runner» Rick Deckard (Harrison Ford) à replicante Zhora. Na versão actual a sequência só parece ao fim de um terço do filme. O que está antes permite compreender melhor a história, mas adia o pathos, o «perigo eminente» sem o qual o drama perde intensidade e a sensação de beleza se dilui.
Blade Runner não foi um êxito de bilheteiras quando estreou, em 1982. Hoje está de novo em exibição e, por muito que enfraqueça em réplicas, penso que continuará a iluminar os nossos sonhos e pesadelos durante o século XXI. À distância, foi um filme a contra-corrente dos anos 80, década em que o cinema europeu se afundou, e Hollywood parecia imbatível com os seus filmes de «ingenuidade sofisticada». Na televisão e na música Michael Jackson parecia mostrar a capacidade da tecnologia e do dinheiro realizarem um mundo à parte e à medida dos sonhos mais íntimos, moldarem o próprio corpo à imagem dos desejos. Blade Runner era o lado negro do sonho. Como, também na área da ficção científica e também realizado por Ridley Scott, Alien, o oitavo passageiro. Ou, num género muito diferente, Blue Velvet, de David Lynch.
Hoje a imagem que temos dos «replicantes» tem outro nome: «clones». Mas o problema ético que uns e outros colocam é o mesmo: um cenário tecnológico que permite construir «sub-homens» destinados à exploração. Outros temas que fazem parte da agenda dos nossos dias estão lá – o descontrolo climático indutor de uma chuva asfixiante, uma sociedade sujeita a uma hiper-vigilância policial, o poder das corporações colocado acima de qualquer código ético e da vida sem horizontes do comum dos mortais. E, para a par de todos os problemas, a possibilidade do amor, de dar sentido e valor a uma vida neste mundo que pode ser curta e é certamente mortal.

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