sexta-feira, dezembro 29, 2006

Éire


Estive há uns dias atrás em Dublin e Cork para uma conferência que – como recordou um colega amigo aos que se queixavam da inconveniente proximidade do Natal– tem alguma coisa de reunião de família (para o bem e o mal). Eis algumas impressões apressadas.
Pude verificar que há sítios aonde o nevoeiro gótico ainda é o que era. Nada como um mosteiro em ruínas ou os edifícios de uma velha universidade a surgirem mal desenhados num mar branco para se cumprir na perfeição as espectativas turísticas para as ilhas britânicas.

Na Irlanda também há corrupção (impune e tudo). O popular primeiro-ministro dos populistas anos 80, Charles Haughey, morreu na paz do Senhor, mas um inquérito agora concluído afirma que teria recebido milhões em troca de favores.

No poderoso catolicismo irlandês, pelo menos na República da Irlanda, não parece haver o culto dos mártires e a vontade de visibilidade que existe no minoritário catolicismo inglês. Os católicos decidiram até recusar o terreno onde se ergue a famosa estação central dos correios, em pleno coração de Dublin, por o considerarem demasiado visível. A maioria das velhas igrejas históricas continuaram na posse da Igreja Anglicana (aqui dita Igreja da Irlanda). Bom para a unificação futura, mas mau para os turistas que se vêm obrigados (ao contrário dos templos católicos) a pagar bilhete se quiserem entrar. Sobre a evolução do peso efectivo das religiões nada posso dizer. Apenas pude verificar que domingo de manhã está tudo fechado menos as igrejas.

A Irlanda, que tanto lutou por se distinguir da Inglaterra, acaba por ser ironicamente muito britânica, com pequenas diferenças. (Até no próprio nome Irlanda está lá o inglês land!) Falam inglês com sotaque um pouco diferente (talvez mais musical). Bebem cerveja (talvez um pouco melhor), em pubs parecidos e com efeitos semelhantes (talvez mais bem humorados). A paisagem rural é igual (talvez particularmente bonita). A arquitectura é britânica (mesmo). Pode-se escolher à vontade entre neo-gótica e neo-clássica, mas a paisagem urbana continuada dominada pela imponência imperial de tribunais, cadeias e edifícios ligados à administração. Arquitectura para se saber quem manda. Mas isso mudou. Muito ou pouco diferentes dos britânicos, quem manda hoje na Irelanda são os irlandeses. E mandam cada vez mais confortavelmente desde que entraram na União Europeia e se empenharam nas corajosas reformas económicas da última década. Espero que o tigre celta esteja para durar. (Mas se não durar desconfio que os irlandeses têm o remédio certo!)

LEITURAS : Em literatura, para além do evidente (Joyce & Comp.) recomendam-se duas histórias irlandesas de dois dos melhores escritores actuais em língua inglesa: John Banville e Colm Tóibín. Quem se interesse pela história recente da Irlanda pode escolher entre o volume mais consensual do veterano Dermot Keogh e o mais revisionista Dirmaid Ferriter.

1 Comments:

Blogger Pedro Picoito disse...

Bruno, a última Prospect trazia uma crónica (de um tipo com evidente nome irlandês) sobre o omodo como a prosperidade económica está a tornar os irlandeses menos anglófobos pela primeira vez em quatro séculos. Talvez te interesse.
E feliz ano novo para ti e para os amigos (do povo)!

3:55 da tarde  

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