quarta-feira, novembro 01, 2006

A narrativa recuperada


Este foi o ano da publicação no nosso país de um dos livros mais marcantes de Fernando Savater A infância recuperada. A primeira edição, em Espanha, data de 1976, quando, na literatura, a análise parecia triunfar sobre a ficção, a linguagem afirmava a primazia sobre a narrativa e o ensaio parecia destinado a ocupar o lugar do romance. Savater trata de um tema dos anos 70 – a morte do romance – mas atirando-se à tese dominante: se o romance merecia morrer é porque abdicara de contar histórias. O livro é uma apologia de autores e géneros literários considerados juvenis: Júlio Verne, Emídio Salgari, Stevenson, os livros de caça a tigres indianos, de aventuras marítimas, de ficção científica e policiais. Em prefácio a uma edição recente da obra, o filósofo espanhol regozija-se por ter antecipado a moda dos dinossauros e a nova vaga de entusiasmo por Tolkien. Podíamos acrescentar que o êxito dos romances históricos e de aventuras do seu compatriota Arturo Pérez-Reverte talvez deva a Savater alguma inspiração e reconhecimento crítico.
Com ironia, o filósofo espanhol aponta semelhanças entre o seu domínio e o romance policial: ambos procuram responder às mesmas perguntas, embora a escalas diferentes – Porquê?, Quem?, Como? e enfrentam a mesma concorrência: «Nem os grandes sistemas nem os grandes detectives têm futuro: as explicações demasiado engenhosas suscitam desconfiança. A sociologia ameaça devorar os dois estilos narrativos, cujos modelos tradicionais se desagregam perante o assalto combinado do brutal e do obsceno, quando não da denúncia política» (p. 197). A esta distância, o CSI prova que não tinha razão, embora a fortuna da Filosofia seja menos certa. Savater contrapõe à a ideia de que ensaio substituiria o romance: as grandes filosofias são narrativas.
No primeiro capítulo do livro, «A evasão do narrador», Savater cita Walter Benjamin e Borges para defender a ética e a estética da narrativa contra o que chama de romance burguês. O narrador ultrapassa «o muro convencional da quotidianidade» para defender valores; o romancista ocupa-se das «convenções secundárias»: adultério, problemas económicos, etc. O narrador situa-se no «lado épico da verdade», combate o mito com o mito; o romancista moderno desmistifica. Romance e narrativa possuem duas missões diferentes, mesmo antagónicas: analisar o «sentido da vida» e chegar à «moral da história». Como filósofo especialista em ética, Savater toma partido pela narrativa e pelo seu herói: «o romance é orientado pela morte, enquanto a narrativa serve de orientação na vida. Quem busca o sentido da vida só pode encontrá-lo na morte: é nela que se reconciliam por fim o interior e o exterior numa unidade inexpugnável» (p. 43). E a morte pode desmentir a vida, como desmentiu a vida da primeira personagem romanesca, D. Quixote. Pelo contrário, na narrativa, a morte «nunca é necessária nem de modo algum dispensadora de sentido. O sentido é coisa da vida, é a própria vida e por isso é a vida que pode dar sentido à morte» (p. 44). «A morte não pode nem confirmar nem desmentir valores cuja eficácia se afirma precisamente contra ela» (p. 45).
Esta tomada de posição apaixonada por um género literário identificado com uma filosofia de vida parece que se esbateu com a evolução da obra. Não porque Savater tenha mudado radicalmente de ideias, mas porque qualquer construção teórica associando uma determinada forma a um determinado conteúdo é discutível. Assim, o autor acrescentará numa edição posterior da obra um capítulo sobre o «Robinson Crusoe», que é um dos primeiros romances, apesar do seu herói ser típico das «narrativas». E no epílogo, também acrescentado em edição posterior, já usará categorias mais esbatidas: «romance-narrativa» versus «romance-romance». Matizes que não beliscam a obra, escrita em nome do prazer de ler histórias, de se embrenhar em aventuras, de reflectir sobre o sentido das acções de personagens que nos marcaram quando crescíamos. Mas recuperar a infância não é um acto arqueológico. Como lembra Savater, após a conclusão de uma narrativa, a pergunta mais legítima é: e depois?

SAVATER, Fernando, A Infância Recuperada, Porto, Âmbar, 2006

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