quarta-feira, maio 31, 2006

Catedrocracia ou o Salazarismo volta a atacar

Creio que o termo catedrocracia foi cunhado por Miguel de Unamano para caracterizar o regime de Salazar. (Mas ainda que não esteja no exílio, não tenho comigo a minha biblioteca para confirmar.) É uma alternativa interessante à ideia - vulgar, mas nada consensual entre os historiadores, portugueses ou estrangeiros - do Salazarismo como Fascismo. Aliás o próprio conceito de Fascismo (seja o original italiano, seja uma eventual variedade genérica) é uma questão complicada. Mas este e outros temas foram já aqui labutados pelo Fernando Martins.
Entre historiadores tudo pode e deve ser debatido e analisado, comparado e compreendido friamente - ditadura, repressão, genocídio. Isso incomoda as ideias geralmente aceites (políticas e outras)? É provavelmente inevitável e até positivo. Há quem queira fazer juízos de valor e tirar consequências políticas para a actualidade sobre estes assuntos passados? Pode ser complicado, mas é natural e legítimo (inclusive para historiadores fora das suas horas de serviço). Mas é, em todo o caso, outra história.
Também percebo que Vital Moreira se desgoste com o facto de um regime ditatorial que ele viveu (o Estado Novo) seja agora um objecto histórico como outro qualquer. Devia retirar, no entanto, alguma consolação de uma das diferenças importantes entre o Estado Novo e a Terceira República em que vivemos: não haver quem consiga subordinar a História a qualquer cartilha política.

E termino com um paradoxo que só me ocorreu ao correr da pena (virtualmente falando). Vital Moreira fez questão de não nomear nem um dos autores que visava na sua crítica. (Tive de me socorrer do Insurgente para saber que se tratava aparentemente do Rui Ramos e do Luciano Amaral). Ora se lermos os discursos de Salazar está lá bem evidente o síndroma do tempo de antena, o silêncio ou o recurso a termos vagos e pejorativos para designar o adversário. Mesmo quando citava, o professor-ditador raramente referia a fonte. Percebe-se. Para Salazar citar abundamente outros seria minar a sua autoridade única e chamar a atenção para a concorrência. Será que não aflora por vezes no nosso comentariato, involuntariamente (espero), algo desta lógica do deserto para melhor brilhar, algo desta mentalidade da lição ex cathedra? Isto não significa que considere que estejamos em risco de uma ditadura (fiquem descansados), e certamente não por parte de uma pessoa tão estimável quanto Vital Moreira. Mas lá que este tipo de atitude dificulta o debate de fundo e a sério num país onde ele já escasseia, lá isso...

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