segunda-feira, janeiro 23, 2006

Um homem com sorte

José Sócrates é um homem com sorte. Nem o seu mais fiel adepto o considera uma figura com a estatura de um Mário Soares, um Vítor Constâncio ou um António Guterres. No entanto, a experiência governativa delirante de Santana entregou-lhe de bandeja uma maioria absoluta sem precedentes no partido socialista. Nas últimas eleições presidenciais, mais uma vez, Sócrates foi bafejado pela sorte. Do seu ponto de vista, a hipótese óptima seria uma vitória esmagadora de Mário Soares. Excluindo a hipótese ideal, os resultados são a alternativa que mais o beneficia. Uma vitória tangencial de Soares ou Alegre iria potenciar as divisões no PS. A vitória de Cavaco Silva, com um resultado significativo de Alegre, favorece a reconciliação – a força de Alegre tem de ser reconhecida e Cavaco pode ser visto como um adversário comum. Mas Cavaco, por natureza, quer estabilidade, não conflito. Ao contrário do que se espera, à esquerda e à direita, mais facilmente o Presidente apadrinharia um governo PS/PSD unido pelas prioridades de saneamento das contas públicas do que dissolveria de ânimo leve o parlamento para entregar o poder ao PSD/CDS. Na noite eleitoral, um amigo italiano falou-me na hipótese de um governo de centro-esquerda/centro-direita suceder à maioria absoluta do PS. Só a falta de distanciamento nos permite considerar a possibilidade absurda.
Cavaco está no Poder para consolidar o centro, garantir a autoridade do Estado e a estabilidade. Quem espera dele a salvação da pátria ficará decepcionado. Porém, mesmo os mais cépticos agradecerão a Cavaco ser uma barreira sólida contra derivas populistas do género da dupla Santana Lopes/Paulo Portas.
A esperança voltará a deslocar-se de Cavaco para o euromilhões. O Presidente tornar-se-á símbolo de uma situação «remediada», de um regime que, afinal de contas, «vai andando».
Post Scriptum: peripécias várias impediram-me de ler os outros posts de O Amigo do Povo sobre as eleições antes de escrever o meu. Concordo com o LAS de que um primeiro-ministro não devia apoiar um candidato à presidência da República.
É pena que as declarações de Agustina Bessa-Luís à TSF na noite eleitoral tenham sido erradicadas das colunas «Diz-se» dos jornais. Fiquei a saber que Manuel Alegre é um homem fora do seu tempo porque é atencioso com as senhoras, o que é completamente anti-erótico, e que uma grande vantagem de Cavaco Silva é a sua estatura física.

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