sexta-feira, outubro 16, 2009

Il Divo

A longa metragem «dedicada» a Andreotti dá que pensar, sobre política e cinema.
Como filme fica preso das suas próprias indecisões, ou idiossincrasias. Quer ser um pouco de tudo, em termos de géneros: documentário, filme denúncia, polícias e ladrões à moda antiga, comédia negra, sátira política. Isso nota-se desde logo em termos formais, na combinação desconcertante de uma montagem acelerada, banda sonora mesmo-muito-pop (e boa) e uso de legendas inspiradas no cinema britânico. Tanta, tanta coisa, acaba por criar um filme intenso e cativante, talvez um pouco longo (promete mais do que acaba por dar, preso por não escolher entre as diversas hipóteses do que podia ser), mas sem o equilíbrio e uma unidade como a do Caimão de Moretti.
Isso mesmo também o compromete politicamente. Enquanto Moretti conseguia «ser italiano» sem ficar paroquial, Il Divo retoma tão literalmente a vida político-judicial-mafiosa italiana que acaba por ser por vezes fastidioso segui-lo, mesmo para quem se interesse por política. O que é irónico para um filme que podia ter em Andreotti um arquétipo do político da Guerra Fria, agora que o tempo desta passou. Em vários momentos (entre os quais alguns dos melhores do filme), é nítida uma empatia com «Il Divo», fazendo justiça à complexidade e ao trajecto único de Andreotti. E, no entanto, esses momentos emocionantes do filme (nos quais brilha o underacting do actor principal, soberbo), diluem-se em momentos de verdadeira histeria e insinuação (mesmo acusação) unilaterais. O objecto cinematográfico híbrido distorce também a leitura política (o que não deixa de ser boa estratégia, aliás). Centrado em Andreotti, fica-se sem uma imagem dele, seja ela simpática, antipática ou ambígua. Isto porque a complexidade não nasce da sucessão (mais do que combinação, que verdadeiramente o filme não faz) de «quadros», ora empáticos ora aviltantes, nasce da matização entre todos esses elementos. E poucos momentos há, em todo o filme, nos quais essa complexidade seja devidamente focada. O que faz com que Andreotti não chegue a estar no filme apesar de o ocupar do princípio ao fim, nunca está nem quando é acusado de tudo (excepto das Guerra Púnicas...), tal como não está quando o vemos em conversas pessoais brilhantes. Simplesmente, está um boneco, magistralmente animado por quem o interpreta. Mais do que motivos para se sentir insultado, tem motivos para se sentir triste, o filme não está á sua altura. Nem podia, talvez. Gigante ou não, é demasiado para este filme.
Fica um objecto de entertainment que vale o preço do bilhete e uma viagem de montanha russa pela estrada sinuosa que é a vida política de Andreotti (mesmo de Itália, o que já é dizer tudo...). Da-da-da.

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