sábado, junho 14, 2008

Planos para alianças

É curioso ver, como ainda ontem sucedeu no artigo semanal de J. M. Júdice no Público, a confusão dos movimentos políticos de hoje com os do passado. Tal como Fernando Gil e Paulo Tunhas falavam do socialismo distópico da «rua» como se fosse um novo marxismo, de menor valia, Júdice fala do entusiasmo do PCP com aquilo que qualifica de «protofascismo» dos piquetes recentes. Informa, é certo, que esteve fora do país, o que explica que atribua ao PCP e não ao BE o entusiasmo com os bloqueios de estrada, mas este olhar para trás, para o já conhecido, é prejudicial à análise do presente e a planos para o futuro. O mesmo se poderia dizer do que por aí se escuta sobre um eventual novo Bloco Central, sem atender à realidade política distinta.
Vem isto a propósito de posts de Hugo Mendes em dois blogs que identifiquei há pouco aqui. O Hugo Mendes interessa-se pelo futuro, pelos combates políticos a desenvolver e quer pensar estratégias de coligação para os empreender. E as dificuldades que encontra são interessantes a vários títulos.
De início, haveria que pensar, antes de qualquer coligação, na identificação dos problemas que a exigem. Como bom cientista social, o Hugo Mendes tende a aceitar por bom aquele «eterno presente» no qual a Economia faz papel de ciência absoluta. Sem subestimar a Economia, o presente e, claro, a economia, uma política de Esquerda em Portugal que queira pensar o futuro (é a posição do Hugo Mendes, é a minha), ganharia em notar a persistência de velhos problemas e velhas atitudes nas situações do presente. E em reconhecer que a injustiça é o problema fundamental da sociedade portuguesa, não apenas ao nível económico da distribuição de rendimentos, mas ao nível das oportunidades de vida em geral, em questões de costumes, etc., e que o sistema de justiça português é o maior obstáculo ao desenvolvimento do país. (Claro que o sistema de justiça reflecte práticas sociais, mas a actuação sobre estas deve ser indirecta, através dele, e não por imposição de qualquer agente político sobre as populações.) A lentidão, iniquidade, auto-suficiência e irresponsabilidade do sistema de justiça constituem o centro de gravidade das disfunções mais diversas nos diferentes subsectores sociais de Portugal.
Desta análise ou daquela outra que o Hugo Mendes aceita e privilegia, chegamos à conclusão, velha de quatro décadas na ciência social portuguesa, de a integração nas instituições europeias ser o principal agente de transformação da sociedade portuguesa. Isto é: terá de ser ao nível europeu que políticas sociais, no sentido mais amplo do termo, mudem a realidade política. Isto é muitas vezes esquecido ou subestimado, por ser dificilmente concretizável, mas as alternativas são todas piores. E, tal como no diagnóstico dos males de Portugal, também é preciso uma visão política definida para estratégias a nível europeu. Não basta verberar os irlandeses.
Assim, é neste terceiro ponto que podemos falar de coligações: definido o que fazer (prioridade de problemas) e em que sedes fazê-lo (nacional e europeia), quem são os interlocutores possíveis? Quem respeite o Estado de Direito, quem veja na integração europeia como veículo principal para a modernização social (não apenas económica) portuguesa, quem não adopte uma politica conservadora por convicção ou tacticismo sistemático (pois se falamos de políticas de Esquerda…). No caso português isto limitaria o apoio às políticas actuais ao PSD, e mesmo assim só no caso de este recuperar alguma estabilidade, o que não está minimamente garantido. Assim, o Hugo Mendes (em diálogo comigo, na caixa de comentários de um dos seus posts) fala em possíveis aliados nos parceiros sociais e na elite económica. Ou seja: em trabalhadores e patrões. Sucede que os sindicatos são cada vez menos representativos das profissões futuras e inovadoras, além de a maior força, a CGTP, estar às ordens do PCP; e, do oturo lado, as «elites económicas» são por norma muito mais «elites» do que económicas, pensam muito mais em termos de (distinção de) classe do que em função de racionalidade económica a prazo, indiferentes aos óptimos argumentos e explicações que o Hugo Mendes oferece. Mais surdos, só os «radicais» de extrema-esquerda com que o Hugo se mortifica a explicar o que diz, como se a dificuldade deles fosse cognitiva…
Permito-me uma sugestão construtiva, talvez utópica, mas testável: o aliado natural para essa política tem de ser a imensa minoria que se abstém. Se nas próximas eleições as actuais políticas saírem vencedoras de novo, mas sem a maioria absoluta que agora as sustenta, isso será, todos dizem, o fim anunciado destas reformas. Deixo de parte o profetismo, que nem pensa nas possibilidades que a evolução (ainda no início) no PSD forçosamente trará à Direita e, por arrasto, à Esquerda. O que me interessa é notar que a maior legitimação que esta modernização pode ter reside na sua recondução com diminuição da abstenção, trazendo para a política, para a vida pública, aqueles que anteriormente se abstinham. Há aliados fora das «caixas» já feitas, é a esses que se deve persuadir a caminhar para a Esquerda.

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2 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

Devia actualizar as suas informações. Ao que se diz quem deu a cara pelos camionistas foi um conhecido quadro do PSD.

4:09 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Diz: "o aliado natural para essa política tem de ser a imensa minoria que se abstém" e "O que me interessa é notar que a maior legitimação que esta modernização pode ter reside na sua recondução com diminuição da abstenção, trazendo para a política, para a vida pública, aqueles que anteriormente se abstinham. Há aliados fora das «caixas» já feitas, é a esses que se deve persuadir a caminhar para a Esquerda"; mas como consegui-lo? Como trazer para a politica aqueles que anteriormente se abstinham?

Beatriz

7:55 da manhã  

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