terça-feira, junho 17, 2008

No?

Muitas coisas se poderão dizer sobre o referendo irlandês (tudo, aliás, com pouco receio de desmentido). Mas duas são particularmente falsas. E convém lembrar uns pormenores alemães finais.

A primeira falsa impressão é que esta é uma vitória da democracia. Esta é uma farsa democrática. Como é que se pode encarar de outra forma - a não ser se se for político profissional com obrigação de prestar vassalagem ao povo soberano? - um processo eleitoral em que os eleitores não cessam de se queixar de não perceber e achar maçador perceber um texto de um Tratado necessariamente complexo e maçador.
Uma farsa democrática ainda maior porque 53% de 45% dos votantes irlandes (população total 4 milhões) votaram não, apontando como uma das razões querer manter o sistema de votação actualmente vigente na UE, que sobretudo no caso da Alemanha (c.80 milhões, boa parte contribuintes líquidos da UE), é um escandalosa distorção do que lhes seria democraticamente devido tendo em conta essa dimensão populacional.

A segunda falsidade é que este «Não» é claramente uma rejeição da UE. Pelo contrário e como de costume, o campo do «Não» foi tudo menos claro. Nomeadamente, boa parte dele jurou a pés juntos não quer sair da UE. No fundo estes «Nãos», nos termos em que foram obtidos - demagógicos, a cavalo na ignorância afoita, envergonhados - são a melhor homenagem que se poderia prestar aos sucessos da UE, apesar dos evidentes defeitos que como todas as criações humanas inevitavelmente tem.

O que interessa tudo isto em Portugal? Desde logo, arriscarmo-nos a perder a incrível publicidade gratuita do Tratado de Lisboa. Mas é aqui que entram os pormenores alemães... É verdade é que a integração europeia é incrivelmente resistente, tendo resistido a muitas mortes anunciadas (para aí ano sim, ano não) nos últimos cinquenta anos. Duvido, no entanto, que a morrer realmente o projecto de reforma do Tratado de Lisboa, a Alemanha continue disposta a pagar a coesão de uma UE cada vez menos coesa. Duvido que continue a estar disposta a aturar 27 países, que, ao contrário de Berlim, se estão frequentemente a marimbar para o interesse comum, para afirmar o seu peso internacional. Duvido que isso seja bom para Portugal.

2 Comments:

Anonymous José Freixo disse...

Que interessante descobrir que o que move a Alemanha é o interesse comum.

10:03 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

É certamente mais do que no caso dos outros países da UE.

10:55 da manhã  

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