segunda-feira, novembro 20, 2006

Vinho Reformista

Em Setembro de 2006 cumpriram-se 250 anos do alvará do Marquês de Pombal que criou a Região Demarcada do Douro. Não me parece que se tenha assinalado muito, com festa ou com estudo, agora que o comemorativismo de tudo e de nada está tão na moda.
Mas talvez seja fácil perceber porquê. É que 250 anos depois esse gesto de intervencionismo do Estado ainda continuará manchado pela polémica (as manchas de vinho custam a sair). Afinal trata-se de uma excepção na agricultura portuguesa e na incapacidade nacional para gerar marcas internacionalmente reconhecíveis.
Haverá provavelmente muitos que lamentarão que o ilustre Marquês de Pombal tenha procurado trazer para Portugal (não imitando, mas emulando) o espírito reformista que medrava pelo resto da Europa, perturbando a paz bucólica do vale do Douro.
Haverá provavelmente muitos que lamentarão que o ilustre Marquês de Pombal não tenha escutado a voz da rua, não tenha atendido os direitos adquiridos dos revoltosos taberneiros do Porto que queriam continuar a vender uma zurrapa qualquer, e que não tenha recuado na sua medida.
Mais de dois séculos depois a pobre região do Douro e o Porto ainda continuam a sentir os efeitos do espírito modernizador e intervencionista do Marquês de Pombal. O Vinho do Porto ainda aí está. É um vinho doce reformista, mas que provavelmente terá um travo amargo para muitos.

6 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

Foi Você que pediu um Porto Ferreira?

3:19 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Realmente, entre o Sócrates e o Marquês a única diferença são os caracóis. Dois grandes estadistas!

4:27 da tarde  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Pois, mas o grande equívoco é que não foi o marquês de Pombal quem criou o vinho do Porto; foram os produtores e mercadores ingleses que se instalaram no Douro e no Porto (que criaram uma oferta de vinho generoso, que sabiam ter procura em Inglaterra). Os Ingleses fizeram, aliás, o mesmo na Madeira. O senhor marquês de Pombal veio depois, querendo organizar corporativamente o negócio e colando-lhe o Estado (interessado que estava, basicamente, no controlo da entrada de divisas no País, no espírito da sua mentalidade mercantilista).

4:55 da tarde  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

O intervencionismo do Bruno é essencialmente romântico... :)

4:57 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Anónimo, pedi e gostei :)

Fernando, cheira-me que essa dos caracóis é uma indirecta.

Luís, os mercadores ingleses não criaram a marca do Vinho do Porto. Vinham buscar vinho a essa zona, como a muitas outras e com uma mais valia reduzida. E ainda bem que eles existiam: o Estado não pode fazer tudo. Mas o que o Marquês fez foi criar um vinho que eles não podiam ir buscar a mais lado nenhum. E são esses nichos de qualidade o mais possível exclusiva, essa massa crítica em certas áreas, que nós temos de (re)criar - de forma a que o investimento, seja nacional ou estrangeiro, não sejo do tipo barriga de aluguer.

11:00 da manhã  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Bruno, o Ingleses não terão criado a "marca" Vinho do Porto; limitaram-se a criar o vinho...

2:30 da tarde  

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