domingo, julho 16, 2006

Chateaubriand


“Como me es imposible prever el momento de mi fin, y a mis años los días concedidos a un hombre no son sino días de gracia, o más bien de rigor, voy a explicarme.”
Assim começa o prefácio das Memóires d’outre-tombe publicadas em França entre 1848 e 1850. Escritas por um aristocrata francês, um dos grandes autores da literatura francesa e mundial, as memórias de François de Chateubriand (na verdade, e em grande medida, apontamentos do seu diário) são um trabalho único e monumental que retrata não apenas uma vida, mas também a história da França, de boa parte da Europa e da América do Norte – que Chateaubriand visitou – entre duas datas do maior significado (1789 e 1848) para a formação do mundo moderno e que E. J. Hobsbawm intitulou, no seu melhor livro, como The Age of Revolution.
Memóires d’outre-tombe são o relato de uma vida e de sociedades que atravessaram, à custa dos maiores sacrifícios, a fronteira que separava o mundo dito tradicional e o mundo chamado moderno. François de Chateaubriand (1768-1848), como Alexis de Tocqueville, representaram e ainda representam a rejeição das soluções políticas radicais, ao mesmo tempo que sempre defenderam a edificação prudente de sistemas políticos liberais, democráticos e cumpridores da lei, com a religião e as igrejas a desempenharem um papel insubstituível de cimento político, social, ideológico e cultural.
Há muito que pensava comprar e ler as Memóires d’outre-tombe. Simplesmente não se me dava lê-las em francês, não existia tradução capaz nem disponível em inglês, muito menos em português ou em espanhol. Tropecei nelas, salvo seja, ontem no El Corte Inglés aqui em Lisboa. É uma elegante edição da Acantillado Bolsillo. Publicada esta tradução em Espanha em 2004, passou este ano, em Fevereiro, a edição de bolso. O cheiro, o formato, o aspecto gráfico e, aparentemente, a tradução, tal como os dois textos introdutórios, são excelentes. Vem tudo – quatro volumes – dentro de uma caixa bela e sóbria que, tal como a capa, equilibram na perfeição o branco do texto com o “fundo” vermelho e o negro. Tudo por € 39.
Termino com mais uma citação:
“Hace cuatro años que, a mi regreso de Tierra Santa, compré cerca de la aldea de Aulnay, en las inmediaciones de Sceaux y de Châtenay, una casa de campo, oculta entre colinas cubiertas de bosques. El terreno desigual y arenoso perteneciente a esta casa no era sino un vergel salvaje en cuyo extremo había un barranco y una arboleda de castaños. Este reducido espacio me pareció adecuado para encerrar mis largas esperanzas; spatio brevi spem longam reseces [Horacio, Odes, I, ii, não ponhas grandes esperanças na breve vida]. Los árboles que he plantado prosperan, son tan pequeños aún que les doy sombra cuando me interpongo entre ellos y el sol. Un día me devolverán esta sombra y protegerán los años de mi vejez como yo he protegido su juventud. Los he elegido, en lo posible, de cuantos climas he recorrido; me recuerdan mis viajes y alimentan en el fondo de mi corazón otras ilusiones.
Si alguna vez son repuestos en el trono los Borbones, lo único que les pediría, en recompensa por mi fidelidad, es que me hicieran lo bastante rico como para añadir a mi heredad la zona colindante de bosque que la rodea: ésta es mi ambición; quisiera aumentar en algunas fanegas mi paseo: aunque que soy un caballero andante, tengo los gustos sedentarios de un monje […].” Escrito a 4 de Outubro de 1811.

2 Comments:

Blogger Pedro Correia disse...

Excelente sugestão. Ando também há vários anos com vontade de ler esta obra: vou ver se é desta que consigo.

3:49 da tarde  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Só não sei é se é boa ideia lê-la em castelhano...

4:55 da tarde  

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