sexta-feira, novembro 03, 2006
A primeira, aparentemente vulgar, é: será que as sondagens estarão certas ao indicar uma vantagem para os democratas? Ela adquirem, no entanto, e neste contexto um sentido dramático. A forma como a imprensa norte-americana tem colocado a questão é a de saber se Karl Rove vê (ainda mais) reforçado o seu estatuto de génio da política eleitoral americana e de eminência parda por detrás do sucesso de Bush. Será Rove, o principal assessor político de Bush, capaz, mais uma vez, de bater as sondagens e os padrões de votação normal em que se baseiam? (O partido no poder em tempo de guerra sempre teve perdas significativas nas eleições para o Congresso). Nas presidenciais de 2000 e 2004, Rove mostrou ser capaz de produzir mais votantes do que era costume a partir de um determinado nível de intenções de voto. Mobilizava a sua base, e imobilizava a base alheia como ninguém. Será que desta vez simplesmente não há eleitores potenciais suficientes para mobilizar? Se Rove falhar a sua queda do pedestal poderá ser dolorosa: as eminências pardas sempre fizeram muitos inimigos e os génios também. Se, contra todas as expectativas, conseguir reduzir ou até inverter a vantagem do Partido Democrata, Rove dourará ainda mais o seu brasão e reforçará o seu poder (e dos elementos mais conservadores) no seio do Partido Republicano.
Mas qual o impacto na política externa destas eleições? O que é que o resto do mundo tem a ver com isto? O peso dos EUA tornam evidente que alguma coisa. Mas mudanças radicais na política externa, controlada essencialmente pelo presidente, dificilmente estarão na mesa. Porém, sobretudo se os democratas recuperarem o Senado, que tem algum poder e credibilidade ao nível da política externa, alguma coisa mudará. Até porque os próprios republicanos irão pressionar Bush a modificar alguma coisa, para evitar um novo desastre eleitoral daqui a dois anos. Dois pontos parecem evidentes. A pressão para substituir o elemento mais impopular da administração - Donald Rumsfeld - iria crescer. (Há um ou dois substitutos óbvios - James Baker III, ou até o «independente» Joe Libermann, se for reeleito para o senado - mas há que contar com o lealismo cego de Bush). Iria crescer também a pressão para o essencial das forças norte-americanas saírem do Iraque o mais cedo possível. Só assim se poderia evitar que a sua sombra se projectasse sobre as novas eleições daqui a dois anos. Já assistimos, aliás, uma cedência neste aspecto crucial com o anúncio, do comandante e embaixador norte-americanos no Iraque, da intenção de fazer uma retirada significativa de tropas num prazo entre 12 e 18 meses. Numa, tão evidente quanto desesperada, tentativa de ganhar votos nestas últimas semanas, o líder republicano no Senado, Bill Frist, veio juntar-se a Mário Soares, e defender que era preciso negociar com os talibãs no Afeganistão, oferecer-lhes lugares no governo, por forma a evitar a derrapagem da situação para algo parecido ao Iraque.
No dia 7 veremos. Quanto ao impacto em Portugal, a única coisa realmente interessante será ver como reagirão os nossos pró-americanos primários.
1 Comments:
Apesar de pró-americano primário, e pró-Bush ainda mais primário, considero, como tu lucidamente o fazes, que caso os democratas ganhem no dia 7 os EUA e o mundo acordarão a 8 completamente diferentes. Só por causa disso, devia fazer qualquer coisa radical. No entanto, como no dia 7 cumpro 41 anos, sou capaz se passar incólume a derrota. Aliás, quem, como eu, aguentou Carter e Clinton como presidentes, certamente suportará facilmente uma maioria democrata no congresso a partir do dia 8.
Quanto aos talibans, ao Soares e ao outro, achei muito bem. Aliás, se esta moda da negociação dos terroristas pega, ainda me faço um. Será a melhor forma de ganhar respeitabilidade e aceder à governação do meu país.
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