Almanaque do Povo

Gostava era de perceber como é que ele só demorou quinze minutos da Portela a Belém: sim, há países nos quais quem governa também bloga sem grandes pompas nem grandes receios; veja-se o caso do mais velho dos manos Miliband, David, valor seguro do New Labour. Confrangedor, aquele vôo a solo na cerimónia lisboeta; o mais provável é que venha a ficar para a História como o primeiro-ministro que antes de ser primeiro-ministro já assinava ao lado dos outros primeiros-ministros.
Prémio Pessoa: Como o João já aqui havia referido, a historiadora Irene Pimentel foi este ano galardoada com o Prémio Pessoa, e considerada pelo seu júri "uma das figuras mais notáveis da actual historiografia portuguesa", sublinhando o dito ter contado para a tomada de tal decisão a sua "adesão aos valores da liberdade e direitos humanos" e a abordagem a temas "difíceis e polémicos". Antes do que se segue, devo dizer que conheço boa parte da obra da autora e a tenho em bastante consideração. Quanto ao prémio em si, fiquei feliz por ver pela bloga a quebra de um certo silêncio (ou da simples parabenização) típico dos meios profissionais pequenos, em que a maior parte das pessoas evita comentários públicos para não ser mal interpretada, ou simplesmente por temer a impopularidade da sua opinião. Refiro-me, por um lado, ao contributo de Fernando Martins, na expressão das razões para a surpresa acerca desta escolha, e por outro o de Daniel Melo e Cláudia Castelo, que detalharam o trabalho desenvolvido por Irene Pimentel, reforçando a atribuição do galardão. A verdade é que estamos habituados a que, em Portugal, os prémios de grande visibilidade como este sejam outorgados no culminar de uma carreira, ou mesmo depois do seu fim. Ora, o perfil do Prémio Pessoa não se enquadra nessa matriz, como a própria galeria de laureados testemunha: nenhuma das individualidades constantes laureadas o é exclusivamente pela sua excelência profissional; todas são destacadas por combinarem determinada contribuição na área das artes, letras e ciências com uma continuada intervenção cívica e política (ou com o potencial de projecção internacional que conferem ao país). O prémio destina-se a elevar o seu perfil público internamente, a qualificar a individualidade como fazedora de opinião. Parece-me um propósito absolutamente legítimo. Mas pouco claramente enunciado.
[imagem: BND da Holanda]
Etiquetas: Almanaque; Luzes Foleiras; David Miliband; Prémio Pessoa
